Lolita Pille

julho 1, 2010

Já que a seção de Literatura deste blog anda parecendo mais um obituário, me parece conveniente dedicar algumas palavrinhas a uma das escritoras mais instigantes da atualidade.

Lolita Pille é uma moça que tem um talento especial para as controvérsias. Dona de um charme delicioso, tipicamente francês, possui um semblante doce que contrasta com a acidez de suas palavras. Nascida no subúrbio parisiense, a virginiana de 27 anos vem de família rica e sempre foi mimada com muios luxos. Acostumada a viver entre madames fúteis, patricinhas, granfinos boçais e filhinhos-de-papai, Lolita desenvolveu desde pequena uma personalidade bastante cri-cri. A partir da adolescência, mergulhou na badalada vida noturna de Paris.

Nesse momento de sua vida, a escritora teve a vida típica de uma jovem dondoca porra-louca. Circulando por restaurantes finos, bares de hotéis luxuosos e áreas VIP dos clubes mais bombados de Paris, Lolita Pille absorveu intensamente as mazelas do jet-set francês. Antes dos 18 anos já era alcoólatra e viciada em cocaína, ocupando todo o seu tempo com baladas, chapações, sexo promíscuo e muitas compras para “desestressar”. Logo, essa combinação autodestrutiva proporcionou à moça uma verdadeira visão do inferno em meio a toda aquela pompa. Foi daí que veio a inspiração para o seu primeiro romance, Hell.

O livro conta a história de uma garota podre de rica que, segundo a autora, é inspirada em seu lado mais obscuro. Para chocar os mais pudicos, na contracapa ela já entrega: “Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis; da pior espécie. Meu credo: seja bela e consumista”. Audacioso e direto, o texto despeja críticas à alta classe francesa com a crueza típica de Charles Bukowski aliada ao fluxo narrativo característico de Jack Kerouac. Lançado na França em 2002 e no resto do mundo no ano seguinte, Hell rapidamente virou best-seller, foi traduzido para várias línguas e ganhou versão para o cinema.

No livro, predomina o tom confessional de uma bêbada que vomita verdades comprometedoras sobre todos que a rodeiam. Apesar de esclarecer que se trata de uma ficção, Lolita Pille não evitou citar nomes, lugares e eventos verdadeiros. Obviamente, a publicação despertou a ira de boa parte da elite parisiense e a autora logo se viu banida de todos os lugares que costumava frequentar. No entanto, as consequências dessa atitude ousada não pareceram incomodá-la. Após exibir um retrato nu e cru de sua própria classe, Lolita Pille mandou tudo aquilo às favas e resolveu mudar de ares.

Trocando a mansão em um dos bairros mais sofisticados de Paris por um apartamento na região da cidade habitada por artistas e boêmios, a jovem escritora também substituiu os badalados clubes por pequenos bares. Segundo ela, nas boates só se vê, enquanto nos bares se pode falar e ouvir. Nesse novo contexto Lolita Pille escreveu Bubble Gum (2004), obra que em muitos aspectos superou Hell. Na perspectiva literária, destaca-se o foco narrativo alternado entre dois personagens: ora narrada pelo excêntrico Derek, ora pela neurótica Manon, a história cresce em complexidade conforme se avança na narrativa.

Assim como o livro anterior, Bubble Gum traz uma crítica à juventude rica e perdida. Derek, jovem herdeiro de uma multimilionária corporação da indústria do petróleo, não sabe mais o que fazer com seu dinheiro e decide arruinar a vida de um ser humano qualquer. Manon, bela jovem provinciana, não suporta mais sua vida entediante no interior da França e vai a Paris tentar a sorte como artista de cinema. Quando as histórias se encontram, o leitor passa a ver cada personagem através da perspectiva do outro, em um engenhoso trabalho de composição que faz de Bubble Gum uma obra substancialmente mais rica que Hell.

Publicados no curto intervalo entre os anos de 2002 e 2004, Hell e Bubble Gum mostram uma artista ousada, que não tem medo de falar o que pensa. Enquanto o primeiro revela o talento de Lolita Pille em jogar merda no ventilador e fazer carreira a partir disso, o último apresenta um notório amadurecimento no que diz respeito à técnica literária. Em 2008 a autora lançou seu terceiro livro, Crépuscule Ville, um thriller futurista sobre alienação. Segundo a editora Intrínseca, o livro já foi traduzido para o português e deve ser lançado no Brasil ainda neste ano.

18/06/2010

junho 19, 2010

saramago morreu e não está nem aí. ele já sabia que seria bem assim, só não sabia o porquê. mas não importava também pois a consciência esteve sempre muito bem. saramago era ateu como eu, que escrevo que ele ainda está por perto. isso poderia soar estranhamente mas não seria novidade para ele, que sentia por ter que deixar de sentir. saramago falava a minha língua, que um dia fora dele, e escrevia corajosamente o que muitos não tinham estômago para ler. por isso sempre estará perto de todos e ninguém jamais chegará perto dele. e isso não faz de saramago um semi-deus, ele já estava de saco cheio de explicar e agora não tem mais motivos para se preocupar. só lhe resta descansar.

Morreu ontem em Montevidéu o escritor uruguaio Mario Benedetti, aos 88 anos, em decorrência de problemas respiratórios e intestinais. Em 60 anos de carreira literária, foi um dos expoentes da literatura latino-americana no século XX e publicou mais de 80 obras, entre livros de poesia, romances, contos, ensaios e roteiros para cinema.

Eu só conheci recentemente o estilo profundo e singelo da escrita de Benedetti, quando alguém me emprestou um de seus livros dizendo que tinha bastante a ver comigo. Publicado em 1999, Correio do Tempo é uma maravilhosa coleção de contos inspiradíssimos que têm a passagem do tempo como motivo para discorrer sobre temas como amor, solidão, morte e esperança. Com simplicidade e beleza, seu texto exala a sutileza do olhar de uma criança mesclada à sabedoria que só vem com as rugas e os cabelos brancos.

Infelizmente, o falecimento deste grande escritor não está recebendo a atenção que merece nas manchetes brasileiras e eu fiquei sabendo do fato meio que por acaso. Talvez o devido reconhecimento venha só com o passar do tempo. Ou talvez isso seja algo irrelevante para um homem dotado de tanta sensibilidade em um mundo tão indelicado.

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