Nós estamos cagando para os outros
maio 11, 2010
Depois de almoçarmos juntos lá pelas cinco e quinze, duas horas e meia após o combinado, marcado por um tipo de convenção social que não tem uma boa explicação, os dois casais ficaram num daqueles silêncios desconfortáveis e eu, na expectativa de ir embora dali o mais rápido possível. Eles nos chamavam para acompanhá-los em uma trepidante noite de putz-putz, uma rave próxima aos escombros de São Luís do Paraitinga.
Segundo eles não havia melhor plano para aquela noite, não havia desculpa, parece que todo mundo estaria lá, e eu pensava “é, todo mundo menos nós aqui”, pois eu sei que a minha guria gosta de sair de vez em quando, meio que pra não morrer sufocada no mesmo ar de sempre, mas ela obviamente tem bom gosto, então cortei o silêncio desconfortável com um definitivo NÃO, tínhamos outros planos que talvez não fossem os melhores planos, eram apenas outros planos para aquela noite.
Eles ficaram com um ar nojentinho de superioridade e perguntaram se poderiam saber quais eram os nossos planos, no que minha guria, cheia de personalidade, disse que apenas ficaríamos em casa escutando música e eles caíram na gargalhada, como se fôssemos incríveis aberrações da natureza, enquanto eu apenas sorri e vibrei com o fato de aquele tipo de convenção social que não tinha boa explicação ter finalmente chegado ao seu fim.
Aproximadamente quarenta e cinco minutos depois, lá estava o outro casal cheio de pó, num beijo babado de bocas amortecidas, fritando ao ao som de algum psy-trance sem-vergonha, enchendo a cara de vodka vagabunda com energético nacional, eles que em breve estariam completamente chapados dando vexame por ele ter atolado sem querer a mão na bunda de outra garota pensando que fosse a dela, vivendo intensamente os melhores planos que poderiam haver para aquela noite.
Nós estávamos enfim a sós, um de frente para o outro, sentados no chão com as pernas cruzadas e o incenso queimando ao fundo de uma luz baixa amarelada, com as orelhas coladas no amplificador de madeira que despejava em nossos ouvidos sgt. pepper’s lonely hearts club band em vinil e produzia, junto com outros agentes catalizadores, um efeito que nos fazia mergulhar um no outro em apenas um olhar, percebendo em poucos segundos o que muita gente não consegue entender numa vida inteira.
Pois eles se obrigam a ter uma dita vida social na Cena, que trata pseudoartistas impostores como ídolos, doutrinada no consumo de psy-trance, pó, bunda e vodka barata e concede aos outros a oportunidade de extravazar o vazio de suas pobres almas enquanto nós, herdeiros da cultura do ócio que tem suas raízes na antiga Grécia, tempo e lugar em que precisava-se matar leões gigantes no braço para ser considerado um verdadeiro ídolo, nós estamos cagando para os outros.
pros quintos dos infernos com toda essa lentidão…
novembro 25, 2009
não quero esperar e pensar tanto
antes de me mexer
só para tentar garantir
a uma força suprema, correta
e imaginária
que eu estou no pleno controle das minhas virtudes
o modelo de homem centrado
cuja serenidade contagia tudo e todos ao seu redor
a imagem do homem sábio e tranquilo
não poderia estar mais distante da minha realidade
e diferentemente do que se espera
não acho uma boa idéia forjar qualidades
onde não há qualidades
os defeitos existem
para nos dar uma dimensão do que é legal
e o que não é
então
de certa forma
posso me convencer de que os meus defeitos
são uma extensão da minha essência espiritual
e que me desfazer deles
seria como cortar fora uma orelha
ou algo que o valha
e a incapacidade de melhorar se justifica
na suposta sinceridade que eu tenho comigo mesmo
quando acordo na manhã de mais um belo dia feio
e penso se hoje eu vou encontrar a felicidade
para ter que encontrá-la novamente amanhã
aquela coisa abstrata como uma miragem
escondida eternamente no amanhã
que a gente pode sempre ver ali na frente
mas nunca chega perto o bastante para tocar
e lembro que ela está logo ali adormecida
esperando por mim
hoje
enquanto eu espanco o teclado freneticamente
tentando encontrar algum alívio imediato
em vomitar a teoria mal-formulada
de uma prática que acontece quase por instinto
e que por isso mesmo eu deveria parar de pensar em tudo
não me concentrar em nada
e simplesmente deixar a vida se desenrolar
como um tapete vermelho rumo a um precipício
pois é isso que eu acho que a vida é
mas melhor não entrar nesses méritos
não quero ofender
nem mesmo quem merece
pois a felicidade me espera
e eu não quero que ela se canse de me esperar
então
pros quintos dos infernos com toda essa lentidão
vou lavar logo o meu rosto
e dar o fora daqui
nostálgica diarréia mental
setembro 2, 2009
dor
sei que parece bobo, mas acho que eu tenho uma queda pela sensação de desamparo proporcionada por tudo aquilo que dói. os momentos felizes quase me lançam para fora de órbita, de tanto que me fazem esquecer da intolerável realidade deste mundo sujo. diferentemente, momentos de dor me trazem de volta ao chão. eu me queimo, logo, eu grito. talvez seja esta a maior prova de que se está realmente vivo: a capacidade de perceber, reconhecer e reagir à dor.
inferno
eu poderia muito bem perder meu tempo tentando me integrar neste inferno, assim como todos os outros parecem fazer quase que por obrigação, ou talvez estejam apenas sendo carregados por ventos e marés que não são tão fortes quanto eles pensam, nem tão fracos quanto eu penso. na verdade, as coisas exteriores a nós só podem ser medidas quando o parâmetro é a nossa própria postura diante delas. se eu me deparo com algum fato desagradável cuja solução se encontra além do meu alcance, posso tomar a decisão de estacionar na minha própria impotência, ou apenas continuar indiferente e seguir em frente mantendo o foco somente naquilo que está ao meu alcance.
“evolução”
se as pessoas tomassem para si mesmas os conselhos que costumam oferecer aos outros, o ser humano certamente seria um bicho muito mais calado. o mundo seria um lugar mais silencioso. a vida seria mais tranquila. boa parte do stress moderno é resultado de falhas na comunicação entre as pessoas, cada vez mais dinâmica. a cada dia aparecem novas engenhocas que, ao proporcionarem mais e mais facilidades para o cumprimento das tarefas do dia-a-dia, abrem precedentes para o surgimento de novos problemas no cotidiano. quanto mais apetrechos se tem, maior é a chance de algum deles parar de funcionar quando mais se precisa. hoje em dia, ficar sem internet ou telefone celular é motivo para que muita gente entre em desespero, mas há 20 anos esses problemas sequer existiam. o homem do século XXI tende a ser cada vez mais mimado, apoiando-se em tecnologias que eliminam a necessidade de sair de casa e interagir com o mundo. já existe bastante gente por aí vivendo trancada em casa, evitando a fadiga, evitando confronto, evitando a gripe, evitando discórdia. tentando evitar a morte, acabam evitando a vida em si. cada vez mais sozinhas, as pessoas passam a se sustentar nas próprias individualidades. vivem em função das diferenças em vez de buscar uma boa convivência apesar delas. até que, um belo dia, algum rebelde sem (boa) causa decide explodir o mundo, por um ou dois motivos: 1) tem os meios para fazê-lo; 2) não tem mais o que fazer, depois de ser contaminado pela preguiça, pela comodidade, pela intolerância e pelo narcisismo típico do eremita contemporâneo. é bem provável que seja este o destino da nossa festejada “evolução”: isolamento -> atrofiamento -> morte silenciosa. a humanidade se desenvolve e o homem definha. e eu não sei se consigo pensar em um final mais apropriado para todo este “progresso”.
último cigarro
julho 19, 2009
eu escrevo e apago, escrevo e apago, escrevo e apago tantas vezes que se estivesse usando papel já teria desnecessariamente assassinado algumas belas árvores cuja sombra eu talvez ainda possa apreciar. escrever de frente para o computador não está funcionando, então resolvo mudar o método. infelizmente, minha mão dormente parece se recusar a segurar a caneta de forma decente. começo a ficar ansioso. parece haver dentro do meu organismo um pequeno monstro que agora se aloja no meu estômago. sinto na boca o gosto de uma existência incompleta como qualquer outra. respiração levemente irregular. mãos frias tremendo. desconforto. tomo a decisão de fumar o último cigarro da carteira. ao longo das primeiras tragadas de um dia cinza que sucede mais uma noite mal dormida, penso em algumas pessoas especiais, importantes para mim. por que será que estão tão longe? será que sou eu que estou? a distância entre nós é a mesma, independentemente de quem deu os passos na direção oposta à do outro. talvez estejamos todos distantes, não só dos outros, mas também de nós mesmos. sem mais nem menos surge uma canção de dylan na minha cabeça, uma das preciosas canções do único disco da carreira de quase cinquenta anos em que o pequeno homem resolveu abrir aquele coraçãozinho duro. a música é you’re gonna make me lonesome when you go e ele diz que poderia ficar junto da pessoa amada para sempre, e nunca perceber a tempo. se a própria eternidade parece pouco tempo para que nós enxerguemos o valor verdadeiro das coisas, o que fazer diante de uma realidade mutante que nos oferece a felicidade e a tira de nós antes mesmo que possamos experimentar um pouco do seu gostinho? penso nas pessoas que hoje me fazem feliz e em como eu deveria, enquanto ainda posso, demonstrar para cada uma delas o valor que elas têm, pois elas realmente farão de mim um cara mais solitário quando se forem. mas provavelmente isso é só mais uma daquelas posturas nobres que costumam penetrar os pensamentos sem se refletir nas ações. solto a fumaça espessa pela boca e pelo nariz, sentindo que o pequeno monstro no meu estômago parece ter se acalmado. o último cigarro chega ao filtro. preciso comprar mais.
Memórias de um Anticristo Superstar
julho 3, 2009
Em 1969, Charles Manson foi acusado de organizar uma série de assassinatos que barbarizaram o mundo – entre eles, o da atriz Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski e grávida de oito meses. Líder da “família” Manson, uma comunidade que pregava ideais libertários com conotações religiosas e o uso de drogas, era considerado o “Messias” por seus discípulos. Na entrevista a seguir, Manson fala sobre seu passado e a vida de celebridade na prisão.
Allan Kern: Quando você sentiu que havia nascido para ser um líder?
Charles Manson: Quando terminei minha sentença em 1967 e experimentei o ácido pela primeira vez em um show do Greatful Dead, senti que eu era Jesus Cristo e iria mudar o mundo.
AK: Como surgiu a família Manson?
CM: Eu sempre tive um controle mental sobre as pessoas. Também acho que tenho um talento com a música e todos sabem que a música conquista as pessoas. Além disso, por algum motivo, aonde quer que eu fosse havia sempre umas 30 mulheres. Logo eu estava cercado por seguidores fanáticos dispostos a fazer qualquer coisa por mim.
AK: Até 1967, você era um músico popular, mas não conseguiu um contrato e logo estava fora de moda. A que você atribui isso?
CM: Nunca fui muito fã de gravar, sabe? Você vai até o estúdio, mas quando chega lá é difícil cantar em um microfone. Símbolos fálicos gigantes apontando para você. Meu relacionamento com música é totalmente subliminar, ela simplesmente flui através de mim.
AK: Já em 1968, dizem que você teve uma epifania ao ouvir o Álbum Branco, dos Beatles. Como foi isso?
CM: Os Beatles se comunicaram comigo através desse disco. A canção Revolution #9 foi como uma revelação bíblica para mim e o Álbum Branco se transformou no meu evangelho. Piggies denunciava a podridão do sistema e Helter Skelter era o anúncio de uma guerra que se aproximava. Os Beatles queriam que eu provocasse essa guerra e restabelecesse a ordem através da minha família. Dizem que isso foi efeito alucinógeno das drogas, mas eu nunca tive tanta certeza. Nessa época eu também estava me iniciando em cultos satânicos.
AK: Quais eram os seus objetivos com os assassinatos cometidos pela família Manson em agosto de 1969?
CM: Não fosse a traição (a denúncia de Linda Kasabian, discípula de Charles Manson que presenciou os ataques), certamente algum negro logo seria acusado pelos assassinatos. Isso daria início à guerra entre negros e brancos anunciada em Helter Skelter. Esta seria a maior batalha já travada na história e culminaria no extermínio de todos os brancos.
AK: Isso incluía a família Manson?
CM: Não. Quando a guerra eclodisse, nós estaríamos abrigados em um lugar que eu gosto de chamar de “poço sem fundo”.
AK: Você e mais quatro membros da família foram presos e condenados à morte em 1971, mas a pena foi alterada para prisão perpétua no ano seguinte. Como você encarou todo esse processo?
CM: Eu estava paranóico, todo mundo queria me matar. Os xerifes locais andavam pra lá e pra cá perguntando ‘Cadê Jesus Cristo? Vamos pregá-lo na cruz’.
AK: Mas você diz que se sente em casa na prisão. Como é isso?
CM: Estar na cadeia de certa forma me protegeu desta sociedade podre. Fui traído, assim como aconteceu com Jesus Cristo. A solução era aceitar a minha crucificação orgástica.
AK: Mesmo encarcerado, você continuou controlando a sua família. O que mudou nesses quarenta anos?
CM: Eu virei um popstar. Com o passar dos anos houve um crescimento substancial da minha legião de fãs e discípulos, o que se nota pelas vendas de livros, discos e algumas outras coisas.
AK: Desde a década de 1970, você vem tentando conseguir liberdade condicional, mas teve seus apelos negados em todas as ocasiões. Você acha que um dia conseguirá sair da cadeia?
CM: Não me importo. A liberdade é um estado de espírito. Estou tão em casa aqui quanto em qualquer outro lugar. A morte é algo psicossomático, um confinamento eterno na solitária, e não há nada que eu deseje mais do que isso.
(Trabalho: forjar uma entrevista com alguma personalidade, viva ou morta, a partir de dados apresentados em outras publicações. Fontes: Rolling Stone Brasil 19 – Abril de 2008 / Superinteressante Especial Contos Bizarros – Novembro de 2003 / Wikipedia).
O Tédio e A Criação
junho 28, 2009
Estudiosos defendem que toda grande obra se origina da falta do que fazer.
A criação do mundo é considerada, por motivos óbvios, o acontecimento mais importante de todos os tempos e até hoje dá o que falar em ambientes que variam de paróquias a mesas de bar. Na maioria das vezes, a obra é atribuída a Deus, o grande Pai, também representado legalmente pelo seu filho pródigo conhecido simplesmente como “Senhor”.
Ainda não há consenso sobre como Deus construiu algo tão colossal em tão pouco tempo e os especuladores ficam alvoroçados nas discussões sobre a matéria-prima utilizada. Contudo, não faltam teorias sobre as motivações do Grande Criador e muitos acreditam que foi o Tédio. Afinal, no princípio nada existia e, consequentemente, não havia nada para se fazer.
Não se sabe se a obra foi pré-concebida em algum tipo de rascunho ou se suas partes foram criadas no calor de uma inspiração momentânea. O fato é que tudo estava pronto em seis dias e há evidências de que a obra foi finalizada antes do prazo de entrega. Segundo rumores, Deus tirou o domingo de folga, tomou um porre e acabou a semana cantarolando We Are The World, entre soluços, abraçado numa garrafa de José Cuervo.
Segundo as Escrituras Sagradas, foi só a partir do quinto dia que Deus resolveu povoar seu belo cenário com inúmeras espécies diferentes que encheram a obra de movimento, brilho e excremento. Providenciou água abundante, comida pra todo mundo e assegurou a criação de condições para que a vida na Terra se mantivesse indefinidamente, por conta própria. E aí deixou tudo sob a supervisão do Homem.
Ironia do destino ou não, dizem que este foi o seu grande erro. De todas as criações de Deus, o homem é a única tão vaidosa que chega a acreditar ter sido feita à imagem do Todo-Poderoso. Onipotente? Prepotente? Quem sabe. O fato é que o Criador foi muito inocente ao delegar tamanha responsabilidade a uma criatura mimada, que mal consegue administrar as próprias contas de luz, água e gás.
(Trabalho: transformar o Gênesis em uma notícia de jornal.)
trabalhos forçados
junho 28, 2009
decidi postar aqui alguns textos escritos não pela força da inspiração literomaníaca, mas por imposição da escolástica dos escribas. escrever por obrigação não tem tanta graça, mas não deixa de ser um saudável exercício de alguma coisa. pois então, a partir de agora, alguns dos trabalhos pedidos na faculdade aparecerão na seção “trabalhos forçados”.
o despertar às nove da manhã de um domingo de outono
maio 3, 2009
a melhor parte do sono é quando o sol começa a aquecer a primeira parte da manhã e as frestas da janela tomam uma cor levemente avermelhada, tornando o quarto mais claro que a noite mas menos que o dia, formando a iluminação ideal. meu corpo já pôde recuperar as energias bem ou mal aplicadas no dia anterior e o que resta do sono é reservado basicamente ao prazer de dormir. os sonhos passam a ter cara de sonhos e eu sinto que posso brincar com eles. jogo o buquê de flores no chão, enfio o dedo no nariz da mulher mais linda do mundo e tiro dali um ranho verde com a ponta sangrenta. subitamente me lembro que li num livro que mesmo as mais belas e finas damas também têm intestinos. então eu faço um estardalhaço, enfio aquela pequena meleca na boca dela e acordo com as minhas próprias risadinhas.
bom dia…
o mau samaritano
fevereiro 8, 2009
maldito seja o nome de quem te faz dormir à noite. depois de varrer os problemas para baixo do tapete tudo parece limpo e lindo. mas a sujeira permanece ali se acumulando dia após dia, enojando todos aqueles que sabem do teu serviço porco que só serve para manter as aparências. o teu discurso cristalino é manchado pela imundície das tuas atitudes. a tua solidariedade só existe quando alguém está olhando para julgar e aprovar, enquanto quem não pode ver é obrigado a acreditar. mas não se esqueça de que tu também já esteve ali naquele mesmo buraco e quando te estenderam a mão tiveram o braço inteiro arrancado. é difícil entender de onde vem toda essa paz de espírito. a obcessão pelo divino sublime me parece um claro sinal de que algo vai muito mal. o bom samaritano corrompido em um grande mal-entendido agora prega a fé cega e diz que é cada um por si e deus por todos. tu já não sabe mais o que fazer com todos os esqueletos apodrecendo dentro do teu armário, então decide vender a alma para tentar comprar a consciência de volta. seja como for, não me parece exatamente uma troca justa.
amar é (+ ou -) preciso
janeiro 21, 2009
se eu tivesse paciência para levantar os dados estatísticos necessários, poderia provar por a + b que se todo mundo tivesse uma quantidade “x” de amor próprio, a soma dos quadrados dos comportamentos depressivos relacionados ao amor não correspondido seria igual a uma dízima periódica muito próxima do zero. parte do raciocínio tomaria como base o fato de que viver para amar é bem diferente de amar para viver, o que desde o princípio botaria em xeque a tese de que a ordem dos fatores não altera o produto. por outro lado, aplicando-se o teorema da incompletude de gödel ao fato de que nunca é possível saber com certeza o que se passa na cabeça dos outros, poder-se-ia constatar que a fórmula proposta é válida no campo da álgebra abstrata, já que não é possível encontrar axiomas que evidenciem a falta de bom-senso mesmo nos relacionamentos virtuais, com a nobre exceção da trigonometria no estudo de alguns relacionamentos polígamos.
vertigem e terapia
dezembro 3, 2008
dadas as circunstâncias, qualquer um que me conhecer vai dizer que eu sou uma daquelas pessoas que precisam de terapia. e, logicamente, eu sei mais do que o suficiente para dizer que elas estão completamente certas. porque eu sou inseguro em relação a muitas coisas. então eu faço psicanálise. mas esse tipo de tratamento frequentemente é mal-interpretado, confundindo-se com algo que implica fazer com que as coisas sejam mais fáceis, mas isso não existe. o psicólogo não é o cara que resolve os teus problemas. é o cara que te ajuda a resolver os teus problemas.
na primeira vez que fui pra itatiaia, fui com a galera subir no cume das prateleiras. pois entre os corajosos montanheiros, “só o cume interessa”. então logo no começo eu tive que pular de uma pedra pra outra, sendo que o vão entre elas (que não era grande) abrigava uma profundidade pelo menos uns cinquenta metros até a rocha dura mais próxima. assim que eu fiz esse simples movimento, um salto de uns 50 cm, fui tomado por uma vertigem que me travou, que me paralisou. minhas pernas se dobraram e eu fiquei congelado, ali sentado. e ali sentado eu fiquei até que a galera descesse do cume e um professor me estendesse o braço, pra que eu me segurasse nele enquanto dava aquele pequeno passo de volta, de uma pedra pra outra. depois disso eu aprendi que esse é o tipo de adrenalina que pode tanto me causar um ataque cardíaco quanto uma queda.
enfim, na relação doutor/paciente quem faz o grande trabalho psicológico é o paciente. o psicólogo faz como o professor que me estendeu a mão, cuja função foi me guiar diante de um pavor. é uma pessoa que te orienta diante das coisas que tu tem dificuldade de encarar. ele mostra o caminho de volta quando tu tá perdido. mas se eu já sei que tenho vertigem e mesmo assim continuo na linha do “só o cume interessa”… das duas, uma: ou eu vou ter que aprender sozinho a não subir mais nas malditas pedras, ou eu vou acabar mesmo é tomando no cu.
vamos nos ater às coisas boas
novembro 28, 2008
meu brother disse outro dia, “vamos nos ater às coisas boas”. uma frase simples cheia de significados. uma frase boa, eu estava pensando há pouco. eu gosto muito de rock, gosto de ler sobre rock, gosto de fazer rock e gosto de escrever sobre rock. mas eu não pretendo nunca (ou, pra ser mais sincero, nunca mais) ter que falar mal de rock que eu considere ruim. uma das maiores perdas de tempo é construir idéias a respeito daquilo que, no fundo, não interessa. não a troco de nada, pelo menos pra alguns. mas nem a troco de qualquer coisa eu acho que queira empregar tempo e energia nessas coisas. a formação de opinião hoje em dia não cabe mais, necessariamente, a quem realmente sabe do que tá falando. e aí um suposto ‘crítico’ resolve publicar sua opinião sobre determinada coisa logo depois de acordar de um terrível pesadelo, levantar com o pé esquerdo e criar as suas birras bem ou mal estruturadas, não porque ele não gostou daquela coisa, mas porque no momento em que ele está escrevendo a vida parece uma bosta e o mundo parece um esgoto a céu aberto. eu tenho milhões de assuntos bons pra falar, então é melhor falar sobre eles antes de mais nada, antes que essa ‘bosta’ toda se desfaça.