Depois de almoçarmos juntos lá pelas cinco e quinze, duas horas e meia após o combinado, marcado por um tipo de convenção social que não tem uma boa explicação, os dois casais ficaram num daqueles silêncios desconfortáveis e eu, na expectativa de ir embora dali o mais rápido possível. Eles nos chamavam para acompanhá-los em uma trepidante noite de putz-putz, uma rave próxima aos escombros de São Luís do Paraitinga.

Segundo eles não havia melhor plano para aquela noite, não havia desculpa, parece que todo mundo estaria lá, e eu pensava “é, todo mundo menos nós aqui”, pois eu sei que a minha guria gosta de sair de vez em quando, meio que pra não morrer sufocada no mesmo ar de sempre, mas ela obviamente tem bom gosto, então cortei o silêncio desconfortável com um definitivo NÃO, tínhamos outros planos que talvez não fossem os melhores planos, eram apenas outros planos para aquela noite.

Eles ficaram com um ar nojentinho de superioridade e perguntaram se poderiam saber quais eram os nossos planos, no que minha guria, cheia de personalidade, disse que apenas ficaríamos em casa escutando música e eles caíram na gargalhada, como se fôssemos incríveis aberrações da natureza, enquanto eu apenas sorri e vibrei com o fato de aquele tipo de convenção social que não tinha boa explicação ter finalmente chegado ao seu fim.

Aproximadamente quarenta e cinco minutos depois, lá estava o outro casal cheio de pó, num beijo babado de bocas amortecidas, fritando ao ao som de algum psy-trance sem-vergonha, enchendo a cara de vodka vagabunda com energético nacional, eles que em breve estariam completamente chapados dando vexame por ele ter atolado sem querer a mão na bunda de outra garota pensando que fosse a dela, vivendo intensamente os melhores planos que poderiam haver para aquela noite.

Nós estávamos enfim a sós, um de frente para o outro, sentados no chão com as pernas cruzadas e o incenso queimando ao fundo de uma luz baixa amarelada, com as orelhas coladas no amplificador de madeira que despejava em nossos ouvidos sgt. pepper’s lonely hearts club band em vinil e produzia, junto com outros agentes catalizadores, um efeito que nos fazia mergulhar um no outro em apenas um olhar, percebendo em poucos segundos o que muita gente não consegue entender numa vida inteira.

Pois eles se obrigam a ter uma dita vida social na Cena, que trata pseudoartistas impostores como ídolos, doutrinada no consumo de psy-trance, pó, bunda e vodka barata e concede aos outros a oportunidade de extravazar o vazio de suas pobres almas enquanto nós, herdeiros da cultura do ócio que tem suas raízes na antiga Grécia, tempo e lugar em que precisava-se matar leões gigantes no braço para ser considerado um verdadeiro ídolo, nós estamos cagando para os outros.

quando o barato sai caro

janeiro 4, 2009

mariana finalmente tinha encontrado um lugar no parque sem gente por perto perturbando o seu espírito cansado. ela tinha acabado de brigar mais uma vez com o pedro, seu distante e insensível namorado, e queria privacidade para fumar. desconfiava que estivesse sendo traída. na verdade ela não gostava de fumar, mas no momento aquela foi a segunda melhor forma de aplacar o seu urgente problema de alta ansiedade. a primeira ela logo desconsiderou porque envolvia assassinato em primeiro grau. então antes de sair de casa, surrupiou um pouco do estoque do pedro e agora estava ali sentada na grama com dificuldades de apertar o seu baseado. de tão concentrada que estava, não conseguiu ver que alguém se aproximava até que a pessoa falasse com ela, lhe dando um grande susto.

- com licença – disse a moça que acabara de descer de uma árvore com notável facilidade, o cigarro na boca – mas eu percebi que você não sabe o que tá fazendo aí. posso ajudar?

- seria legal, mas eu acabei de deixar tudo cair na grama. – disse mariana, meio encabulada.

a estranha soprou uma nuvem de fumaça e tirou do maço um lindíssimo baseado feito em seda roxa.

- ah, você já tem um pronto! – disse mariana, surpresa.

- sim. e devidamente temperado.

- sério? – perguntou mariana, agora com um certo receio.

- sério. tem fogo?

seu nome era paula. tinha cabelo liso, longo e ruivo, olhos azuis, era magra e tinha pele muito branca. piercings por toda parte e uma enorme tatuagem que parecia cobrir as suas costas. tinha uma beleza exótica, parecia inteligente e totalmente segura de si. a mistura de calor físico com frieza mental se manifestava através de um olhar fuzilador, cheio de rímel. o grande trauma da sua vida era a falta de bunda. acendeu o baseado.

mariana tinha olhos caramelados e o cabelo de uma cor que ela insistia em dizer que era café arábica clonado no sul de minas gerais, um delicioso café ligeiramente encorpado e com o aftertaste ideal para halls verde. seu tipo físico era o de uma semi-deusa indígena, mas ela não era capaz de enxergar a sua própria beleza. estudava  mitologia e filosofia grega, gostava de literatura, artes plásticas, moda e culinária. especialista em auto-sabotagem.

- esse baseado tem um cheiro terrível, mas um gostinho delicioso. parece que eu consigo sentir o sangue correr pelas minhas veias.

- eu não sinto cheiro. – disse paula.

em poucos minutos as duas estavam chapadas. mariana pensava que o tempero deveria ser haxixe, mas na verdade era crack. sentiu seu coração bater mais e mais depressa, então deu-se por satisfeita após umas cinco tragadas. paula continuou fumando. era viciada em todo tipo de narcóticos, de calmantes a antidepressivos, de estimulantes a alucinógenos, de fermentados a destilados. começou a ouvir coisas…

- tem alguma banda de fanfarra ensaiando por aqui?

- que é isso? – estranhou mariana.

depois começou a ver coisas…

- olha esse céu azul! olha os pássaros, que lindos!

os pássaros estavam alvoroçados com o vento e as nuvens negras que anunciavam a chegada de uma tempestade tropical. paula estava alucinando. até que, por fim, veio a crise epilética. mariana sentiu um arrepio gelado percorrendo sua espinha dorsal. pensou que ia ter um ataque cardíaco, mas logo viu que não conseguiria sair dali tão facilmente. tremendo muito, vasculhou sua bolsa atrás do celular e discou os números com dificuldade.

em cerca de 10 minutos mariana se viu em uma caótica viagem dentro de uma ambulância e os paramédicos lhe disseram que sua amiga ia ficar bem. então começaram a lhe perguntar o que havia acontecido, mas ela estava muito apavorada para abrir a boca e articular alguma resposta. seus olhos vermelhos e arregalados pareceram responder as perguntas dos paramédicos. overdose.

- tsc. – disse um deles, enquanto o outro balançava a cabeça.

quando chegaram no hospital, mariana teve que preencher páginas e mais páginas de formulários. quando terminou, sentiu que precisava mais do que nunca de um café forte. mas antes precisava ir ao banheiro. saindo de lá, ouviu alguém entrando, desesperado e encharcado pela chuva. era pedro. sentiu um enorme alívio e caminhou em sua direção.

então ouviu-o dizer que estava lá para ver sua namorada, paula alguma coisa. novamente sentiu o gelo em sua espinha. não conseguiu esboçar qualquer tipo de reação, então virou as costas e saiu caminhando debaixo daquela chuva de verão. viu que não podia continuar com sua auto-sabotagem em relação ao fracasso do seu namorico. naquele momento só havia uma coisa em seu pensamento: sentia que precisava fumar mais.

currada

dezembro 8, 2008

maria madalena tinha o costume de dormir sempre nua. mas naquele dia ouvira alguém falar que isso faz os peitos caírem mais rápido, então naquela noite ela foi dormir usando apenas um sutiã que joga os peitos pra cima. se havia uma coisa em maria madalena que chamava a atenção de qualquer homem e despertava inveja em qualquer mulher, eram aqueles enormes peitos naturais perfeitos. e ela definitivamente ainda não estava pronta para ver seus gloriosos peitões começarem a cair. depois de beber meio copo d’água, apagou a luz do abajur e deitou-se por cima dos lençóis, calorenta. pegou no sono em menos de três minutos.

ela dormia pesadamente quando um enorme sujeito entrou silenciosamente pela janela de seu quarto. ele parecia conseguir enxergar perfeitamente no meio  daquela escuridão e ficou parado em frente a cama observando o sono e a leve respiração de maria madalena, que sonhava que estava dando para josé cristiano dentro da piscina de um enorme parque aquático no vaticano. quando o brutamontes sentou-se na cama, ela não percebeu. então ele lentamente levou sua mão grande e áspera à boca de maria madalena. ela acordou, arregalou os olhos em uma expressão de verdadeiro horror e deu um berro abafado pela mão gelada que apertava o seu rosto.

passado o susto inicial, maria madalena só pensava em sair viva dali. sabendo que não conseguiria vencer aquela força bruta, decidiu que talvez fosse melhor dar ao sujeito o que ele queria para que tudo aquilo acabasse logo. pelo menos foi isso que ela disse para si mesma. mas no fundo, ela gostava de hardcore e sempre fantasiou sobre como seria ser currada. agora que ela estava vendo a coisa acontecer, tudo era assustador demais para que ela esboçasse qualquer reação.

então o misterioso grandalhão não encontrou grandes dificuldades para penetrá-la. sentiu-a úmida e escorregou para dentro dela, entrando até a metade. ela era apertada. ele se sentia ótimo. ele ainda mantinha sua mãozona tapando a boca de maria madalena, mas agora havia algo instigante no jeito que ela olhava pra ele. ela parecia estar de alguma maneira apreciando aquele seu estado vulnerável. logo ele estava inteiramente dentro dela chegando ao clímax, quando explodiu em porra, teve um ataque cardíaco e morreu.

maria madalena então se viu debaixo daquele enorme cadáver, ainda penetrado nela. tirou a mão pesada que ainda tapava seu rosto e deu um grito que ninguém ouviu. com asco, empurrou o corpo do brutamontes para o lado e correu para o banheiro, chorando. ficou três horas dentro da banheira e bebeu uma garrafa inteira de vinho. depois saiu calmamente do banheiro e ficou enjoada com o cheiro de bacalhau que empesteava o quarto. acendeu um cigarro, enfiou roupas em uma bolsa, incendiou a casa e desapareceu para sempre.

fim de tarde

dezembro 8, 2008

percorrendo devagar a avenida assis brasil, observamos uma ação da brigada militar meio exageradamente violenta, aonde 3 policiais deitaram a mulher de bruços, sem fazer nenhuma questão de evitar que o rosto dela se esfregasse naquele chão imundo. daí a julia, na magnífica e pura beleza de uma linda menina de 5 anos de idade ajeitando a franja dourada que caía na frente dos seus enormes olhos azuis, perguntou:

- paiê, por que eles tão batendo naquela moça?

- ah, ela deve ter feito alguma coisa errada. mas acho que não estão batendo nela não, ela provavelmente vai ser presa.

- presa? como assim?

- vão guardar ela dentro de uma jaula cheia de outras moças que andaram fazendo coisas erradas.

- então eles vão deixar ela de castigo?

- ahan.

- odeio ficar de castigo. que será que ela fez?

troquei o CD do som. tirei o sky blue sky e botei o blood on the tracks. poucas pessoas nessa época ainda ouviam CD no carro. acendi um marlboro, dei uma longa tragada e soltei aquela fumaça densa pra fora da janela do carro. era um dia frio, o inverno estava chegando com tudo em porto alegre.

- ah, pode ter sido um monte de coisas. talvez tenha roubado alguma coisa, mas ali eu acho que ela deve ter xingado os policiais.

- outro dia um guri da minha sala xingou outro guri e não aconteceu nada. e naquele dia, quando a gente foi no Olímpico, tava todo mundo xingando o juiz e ninguém ficou de castigo.

- poisé, mas quem xinga os policiais sempre vai de castigo.

- por quê?

- porque os policiais são uns vermes cheios de razão. eles podem xingar os outros e ninguém pode xingar eles, senão vai de castigo. escuta, eu quero que tu se mantenha longe desses caras, tá? policiais são bandidos de uniforme.

- tá bom, papai.

ela colocou o pirulito de volta na boca e continuamos em silêncio nosso trajeto em direção ao centro da cidade. desde que eu me conheço por gente sou apaixonado por aquela cidade, sempre planejei passar a minha vida adulta lá, mas a vida é imprevisível demais para se planejar qualquer coisa. tanto que agora eu estava ali do lado daquela pequena pepita de ouro, a coisa mais linda que eu já vi, aquela coisinha fofa que finalmente deu sentido à minha vida. tão de repente, como num estalo de dedos, eu não precisava mais de motivos para sorrir.

foi aí que “simple twist of fate” começou a sair das caixas de som, diretamente para os meus ouvidos. uma lágrima prontamente escorregou pelo meu rosto. não fiz questão de disfarçar e a pequena Júlia nada disse, apenas chegou perto e me deu um beijinho no rosto. melecado e com o aroma de cereja do seu pirulito.

- e aí jujubas, tá com fome?

- siiiiim!

- vamos no mcdonald’s?

ela abriu aquele sorriso lindo gigantesco, iluminando os meus olhos cansados.

- vamossssssssss!!!!!

- mas a tua mãe não pode saber, tá? tu sabe que ela é meio maluca com a tua alimentação.

- a mamãe é muito chata às vezes.

- é, eu sei.

- ela diz que eu não posso comer no mcdonald’s.

- ah, mas ela também jura por deus que não ronca, né?

ela soltou aquela gargalhada gostosa de criança que vai ganhar um lanche feliz. entramos no mcdonald’s. eu já não aguentava mais comer aquelas coisas após tantos anos. ela estava em dúvida sobre qual dos brinquedos ela queria, eu comprei todos com a condição de que ela os guardasse em algum lugar que a mãe dela não os encontrasse. comemos e fomos conferir o pôr-do-sol no rio guaíba. era um belo fim de tarde do mês de maio e já fazia muito tempo que eu não me sentia tão puramente feliz.

mundo caótico

dezembro 8, 2008

eu estava parado no meio da rua com meu chapéu de cowboy na cabeça pensando que talvez aquilo ali fosse chamar a atenção de alguém, mas naquele instante o cara do programa de reabilitação baseado em parar de beber bebendo esqueceu que o cigarro estava aceso e o colocou atrás da orelha, queimando um pouco do seu cabelo meio encaracolado e fazendo surgir aquele cheiro ruim, deu um berro e jogou a bituca ainda acesa por cima do muro, no momento em que o grande berro assustou a jovem capitã do time olímpico de squash que estava sentada ao lado do chafariz de águas poluídas, concentrada e de olhos arregalados lendo um livro do paulo coelho, um livro chato como só o paulo coelho sabe escrever, e deixou cair um pirulito de maconha que estava escondido dentro do seu enorme decote, despertando a atenção dos tiras que perseguiam um velho lunático bêbado que acabara de roubar três latas de uma caríssima ração especial de cachorros com problemas no fígado que ele surrupiara para ele mesmo comer, mas os tiras não olhavam para o pirulito e sim para o decote, deixando escapar o velho que ao chegar na esquina trombou de frente com uma freira distraída com seu chapeuzinho em chamas por causa da bituca acesa que caíra dos céus em sua cabeça na hora que ela retornava do psiquiatra, e eu nem sabia que freiras iam ao psiquiatra, pensei que elas falassem direto com deus e tal, mas enfim, ela voltava do consultório ainda meio balãozona por causa dos lorax há pouco ingeridos e ela e o velho desmaiaram chapados com a forte trombada, chamando a atenção do motorista paranóico da kombi entregadora de leite que sempre evitava cruzar com policiais, carteiros, lixeiros e pessoas uniformizadas em geral, perdendo o controle da kombi e invadindo desgovernadamente o parque da cidade até pechar de frente numa árvore, no momento preciso em que batia o sinal de saída do colégio especial de crianças hiperativas e todas elas começaram a beber todo aquele leite, acompanhadas por uma matilha de cães vira-latas eufóricos e cheios de apetite sexual em função do odor que emanava das partes alguma cadela da área que estava no cio, atrapalhando um grupo de pessoas que fazia tai chi chuan pouco antes de deixar as imediações da cidade para cometer suicídio coletivo, algo que o coronel almeida já previra semanas antes mas nada pôde fazer a respeito pois fora convencido pelo cunhado pilantra a entrar no programa de reabilitação baseado em parar de beber bebendo.

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