Gavin Cavanagh (Rhys Ifans): "A única coisa que faz sentido nesse mundo louco é o rock n' roll"

Os Piratas do Rock é uma daquelas produções britânicas que facilmente agradam o público acostumado com os blockbusters de Hollywood, mas sem perder o charme típico do cinema europeu. Escrito e dirigido por Richard Curtis (conhecido na Inglaterra por roteirizar a série Mr. Bean e uma porção de comédias românticas), o filme é um prato cheio para todo fã de música pop que se preze.

Em 1966 o mundo viu uma efervescência até então inédita na música pop. Foi o ano de lançamentos como Revolver (Beatles), Pet Sounds (Beach Boys) e Face to Face (Kinks), considerados divisores de águas na história do rock. Ainda assim, as rádios oficiais britânicas dedicavam míseros 45 minutos diários de sua programação à música popular. O cenário foi propício para o surgimento de inúmeras rádios-pirata ao redor do Reino Unido, transmitindo as novidades musicais da época a partir de velhos navios pesqueiros que circulavam fora dos limites territoriais britânicos.

O filme gira em torno de uma dessas estações, a fictícia “Radio Rock”. Com a proposta de trazer uma programação de 24 horas diárias com o melhor do rock numa de suas épocas mais produtivas, a rádio rapidamente virou sensação entre o público jovem e despertou a ira das autoridades britânicas, extremamente conservadoras. A estação era formada por um time de DJ’s que aos poucos se tornaram pequenas celebridades do rádio, encabeçados pelo experiente Quentin (Bill Nighy) e por um carismático norteamericano conhecido como “O Conde” (Philip Seymour Hoffman).

Com o retorno do famigerado DJ Gavin Cavanagh (Rhys Ifans) de uma expedição em busca das melhores drogas do mundo, o conteúdo da rádio fica ainda mais subversivo, para desespero do governo. Dentre as práticas rotineiras do grupo destacam-se os jogos recreativos movidos a bebedeiras, a inclusão de palavrões nas transmissões como “mensagens subliminares”, as festas orgásticas com ouvintes cuidadosamente selecionadas e a sabotagem de rádios-pirata concorrentes, quando agiam quase como verdadeiros piratas.

Aliás, esta última parte citada não consta no filme original. Se todas as cenas gravadas tivessem sido incluídas, o filme passaria de três horas de duração. Assim, algumas das cenas mais memoráveis que foram filmadas (segundo o próprio Richard Curtis) ficaram de fora da edição final. Uma delas mostra a viagem de Gavin Cavanagh pelos botecos da América do Sul, quando ele percebe que de nada adianta uma vida repleta de sexo e drogas quando não há o bom e velho rock n’ roll. Portanto, se você viu o filme pela TV, esteja ciente de que perdeu algumas das melhores partes.

A versão do filme em DVD é um dos maiores exemplos de bom uso do espaço de extras no formato. Vale a pena conferir também a trilha sonora, que compila 36 clássicos (uns bem conhecidos, outros mais obscuros) encontrados na programação da rádio. Os Piratas do Rock é uma comédia que vai na contramão de tudo que é explorado atualmente no gênero, para voltar as atenções a uma época em que a música era mais pura, as drogas eram menos letais e a liberdade sexual ainda não se reduzia à mera vulgaridade.

Os Piratas do Rock
(The Boat That Rocked)
2009
Direção:
Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Lucy Fleming, Bill Nighy, Rhys Darby, Nick Frost, Chris O’Dowd, Tom Wisdom, Jack Davenport, Ralph Brown, Rhys Ifans.
Avaliação IMDB: 7,5

Closer – Perto Demais

agosto 24, 2010

A cena de striptease de Natalie Portman é uma das mais marcantes da última década

Mike Nichols não precisava provar nada a ninguém quando decidiu levar aos cinemas a peça de Patrick Marber. Naquele ponto de sua prolífica carreira, o homem já devia ter em sua casa um quarto espaçoso só para abrigar a vasta coleção de troféus dos prêmios Grammy, Tony, Oscar, Emmy, Globo de Ouro e tantos outros que já recebeu desde os anos 60. Em Closer, do alto de seus 74 anos, o diretor criou uma obra de arte contemporânea a partir de temas recorrentes em sua carreira: amor e traição.

O que diferencia Closer de boa parte das produções recentes do gênero é o foco psicológico da narrativa. É impossível saber o que se passa nas mentes dos quatro protagonistas, que formam um intrincado quadrado amoroso sustentado em mentiras. A deslealdade dos personagens se dá, acima de tudo, pelo medo que eles têm de se entregar verdadeiramente ao companheiro. São pessoas que querem desesperadamente acreditar no amor, mas não conseguem chegar perto demais de ninguém pois sabem que eles mesmos não são dignos de confiança.

Dan (Jude Law) e Alice (Natalie Portman) se conhecem por obra do acaso, em uma das cenas de abertura mais belas da última década. A primeira vez que seus olhares se encontram é flagrada em câmera lenta, em uma movimentada avenida de Londres, ao som da latejante “The Blower’s Daughter”, de Damien Rice. Já Anna (Julia Roberts) e Larry (Clive Owen) se conhecem após um mal-entendido, se apaixonam e passam a viver juntos. O foco da narativa é a infelicidade dos dois casais, provocada pela convivência forçada entre pessoas que não se amam porém continuam vivendo juntas, talvez por medo da separação ou pura comodidade.

A infidelidade vira algo corriqueiro em suas vidas, até que Dan e Anna decidem romper com seus parceiros para ficarem juntos. Em uma noite, Larry sai para afogar as mágoas em um bar. Bêbado, ele reconhece Alice trabalhando como stripper e pede uma dança particular. Apesar de Mike Nichols ter excluído as cenas de nudez a pedido de Natalie Portman, a polêmica cena consagrou a atriz como uma das mais respeitadas de sua geração, agora adulta. Não por acaso, o papel lhe rendeu o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante, além de indicações ao Oscar e ao BAFTA (a equivalente britânica da Academia).

A trilha sonora é um espetáculo à parte. A cena inicial perderia muito de seu encanto sem a melancólica canção de Damien Rice, que ainda contribui com a singela “Cold Water”, ambas de seu elogiado disco de estreia. A banda irlandesa The Devlins criou o clima perfeito para o momento em que Larry encontra Alice na casa de striptease com “World Outside”, uma balada sexy e instigante. Bebel Gilberto, a princesa do MPB para exportação, também aparece com três faixas de seu primeiro disco. E, para refinar a ambientação cult chic, a trilha ainda conta com ecos de Wolfgang Amadeus Mozart.

No decorrer do filme, é fácil alimentar a impressão de que a falta de escrúpulos de Dan e Anna faz deles os vilões da história. Mas é justamente aí que a maestria da direção de Mike Nichols faz toda a diferença: como não se pode realmente penetrar nos pensamentos dos personagens, a única certeza que se tem é que ninguém é santo nessa história. Pode-se supor que Larry e Alice foram vítimas da falsidade de seus parceiros, mas ao mesmo tempo percebe-se que eles eram tão enigmáticos quanto Dan e Anna.

Em suma, a conclusão que se tira após o final de Closer é: nunca é possível saber quais são as verdadeiras intenções das pessoas.

Closer – Perto Demais
(Closer)
2004
Direção:
Mike Nichols
Roteiro: Patrick Marber
Elenco: Jude Law, Natalie Portman, Julia Roberts, Clive Owen.
Avaliação IMDB: 7,4

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