Como bem defende boa parte dos fãs e especialistas, Exile On Main St. é O grande disco dos Rolling Stones. Gravado na casa de Keith Richards na França e lançado há exatos 38 anos, o álbum abrange todos os estilos explorados dentro do rock n’ roll até então e foi descrito por Frank Zappa como “um grande sopão de rock”, com todos os ingredientes necessários.

Em 17 de maio de 2010 a obra ganhou um relançamento de luxo que conta com o CD remasterizado, DVD, vinil, livreto com fotos inéditas e postcards estilizados, além de um generoso CD bônus com 10 faixas inéditas, todas gravadas nas sessões do final de 1971. O álbum também pode ser encontrado em versão simples ou dupla, com o CD bônus incluso.

A capa e a versão deluxe de Exile On Main St.

Faixas inéditas

Exile On Main St. foi lançado originalmente em vinil duplo, mas hoje se nota que poderia muito bem ter sido um disco triplo. Algumas das faixas novas são clássicos instantâneos e fica difícil entender como pode ter “faltado espaço” para elas. Seja como for, agora não importa mais. Sorte de quem viveu até hoje para ver este tesouro ser desenterrado.

Os primeiros acordes de “Pass the Wine (Sophia Loren)” sugerem uma produção relaxada, típica de uma demo. No entanto, a música ganha pegada e estilo à medida que o arranjo cresce. O refrão é uma ode à tríade sexo, drogas e rock n’ roll: “I’m glad to be alive and kicking / I’m glad to hear my heart’s still ticking / So pass me the wine, baby, and let’s make some love” (“É bom saber que estou vivo e curtindo / É bom saber que meu coração ainda está batendo / Então me passa o vinho, baby, e vamos fazer amor”).

O single "Plundered My Soul" foi lançado em abril de 2010

“Plundered My Soul” não é somente uma boa canção, mas uma pérola pop. Daquelas que te conquistam logo na primeira audição, te fazem cair da cadeira e espernear loucamente pelo fato de eles terem demorado 38 anos para mostrá-la ao público. Gravada em 1971 para entrar em Exile On Main St., não se sabe por que uma música tão cativante ficou fora do álbum. Além do primoroso arranjo das guitarras, destaca-se o impressionante poder vocal de Mick Jagger no seu auge como cantor. A canção ainda foi abrilhantada pelas impecáveis contribuições de Lisa Fisher e Cindy Mizelle, atuais backing vocals dos Stones.

Na sequência, “I’m Not Signifying” é um blues cadenciado e grudento, encrementado com belos solos de guitarra, sax e gaita. “Following The River” é uma  daquelas baladonas em que o piano de Nicky Hopkins faz a cama para a voz de Mick Jagger deitar e rolar. “Dancing In The Light” é construída em cima da marca registrada dos Rolling Stones: a combinação do vocal rasgado de Mick Jagger com os riffs ganchudos de Keith Richards. A primeira metade do CD bônus traz uma sequência arrebatadora de canções, que se destacariam em qualquer álbum da discografia dos Stones.

“So Divine (Alladin Story)” é ao mesmo tempo exótica e chicletuda, talvez tenha sido deixada de lado porque o riff introdutório lembra vagamente o começo de “Paint it, Black”, de 1966. Em seguida aparecem versões alternativas de “Loving Cup” e “Soul Survivor”, esta cantada por Keith Richards. Ambas revelam a influência de Gram Parsons no som da banda, especialmente no jeito de cantar. A sensacional “Good Time Woman” tem um bom motivo para ter sido descartada: é uma clara versão embrionária de “Tumblin’ Dice”. A rápida jam instrumental “Title 5″ fecha o CD bônus em grande estilo, com um rock vigoroso e dançante.

O álbum

Considerado por muitos uma obra-prima, Exile On Main St. é definitivamente o álbum mais representativo da carreira dos Rolling Stones e coroa o auge criativo da banda entre os anos de 1968 e 1974.

No início dos anos 70, Mick Jagger atingiu seu auge como vocalista

“Rocks Off” abre o disco em grande estilo e já mostra que, pelo menos na parte musical, a química da banda nunca esteve tão forte. A canção foi supostamente gravada em apenas dois takes. A seguir vem “Rip This Joint”, um arrasa-quarteirão com vocais que Mick Jagger nunca mais conseguiu repetir. Duas músicas inspiradas nos cassinos de Monte Carlo fecham o Lado A: “Casino Bookie” surgiu de uma jam entre Keith Richards e Bobby Keys, e “Tumblin’ Dice” é o grande sucesso que prenunciou a essência da banda daquele momento em diante: puro rock de arena.
 
O Lado B privilegia a música country, indicando que boa parte dessas canções tiveram o dedo de Gram Parsons. A acústica “Sweet Virginia” tem vocais nitidamente inspirados nos trejeitos do músico norteamericano e traz um belo trabalho de Mick Jagger na gaita. “Torn And Frayed” foi baseada em fragmentos que Keith e Gram estavam compondo juntos.

Abrindo o Lado C, “Happy” é cantada por Keith Richards e foi composta rapidamente na varanda da mansão em Nellcôte quando o guitarrista soube que sua esposa estava grávida novamente. “Ventilator Blues” é um dos raros casos em que Jagger e Richards cederam direitos autorais a outro integrante da banda. A canção de fato nasceu de um riff criado por Mick Taylor e teve a letra inspirada num ventilador que aliviava o calor de uma noite quente. Bobby Keys colaborou com a batida rítmica da música, batendo palmas fora do tempo para que Charlie Watts executasse a os compassos corretamente.

O Lado D encerra o álbum com o rock acelerado de “All Down the Line” e mais uma cover de Robert Johnson (os Stones já haviam gravado “Love in Vain” no disco Let It Bleed). Em seguida inovam mais uma vez com uma típica canção gospel (“Shine a Light), para fechar com a nervosa “Soul Survivor”, de Keith Richards. O guitarrista, figura central durante as gravações do álbum, foi o principal responsável pela riqueza musical na composição e produção de Exile On Main St..

As sessões de gravação de Exile On Main St.

A parceria Jagger/Richards já dava sinais de desgaste em 1971

Apesar de trazer a banda em seu auge criativo, a gravação de Exile On Main St. em 1971 marcou um momento de ruptura entre os integrantes da banda, que naquele momento estava exilada na França para fugir dos abusivos impostos de Sua Majestade.

Mick Jagger estava envolvido com a mulher Bianca e começava a se desentender com Keith Richards, que havia adotado Gram Parsons como parceiro na música e no vício em heroína. Bill Wyman fumava maconha com frequência e se mantinha ocupado com projetos paralelos. Charlie Watts, agora um alcoólatra, tentava se dedicar à família. Já Mick Taylor, abusando do álcool e da cocaína, estava cada vez mais paranóico e desconfiava que sua esposa estaria de caso com Mick Jagger.

Como as gravações estavam acontecendo na mansão de Keith Richards em Nellcôte, na França, houve muito atraso em função das distrações com festas, drogas e inúmeros convidados que movimentavam a rotina na casa, como John Lennon, Eric Clapton, Gram Parsons e William Burroughs. O clima entorpecente do local fazia com que alguns músicos constantemente abandonassem as gravações, enquanto os outros se distraíam com as enormes quantidades de drogas que Keith financiava. Consequentemente, as sessões de gravação nunca contavam com uma banda fixa, e sim com quem estivesse ali na hora.

Mick escrevia e passava a maior parte do tempo acompanhando a mulher, que estava grávida de sete meses. Bill Wyman e Charlie Watts se cansaram do ambiente pesado e improdutivo na casa de Keith e voltaram para suas casas. Assim, a banda que gravou as bases de Exile On Main St. era formada por Keith, Gram Parsons e o roadie Ted Newman Jones III nas guitarras, Mick Taylor no baixo, Bobby Keys no sax, Nicky Hopkins no piano e Jimmy Miller na bateria. Bill Wyman abandonou definitivamente as gravações, iniciando um desentendimento com Keith que se estendeu por mais de dez anos.

As conturbadas gravações de Exile On Main St. comprovaram que o núcelo musical da banda era Keith Richards. Nos anos 60, Mick Jagger e o guitarrista Brian Jones disputavam a liderança da banda e, invariavelmente, o que estivesse mais próximo de Keith detinha o controle. Após a morte de Brian, a liderança era claramente de Mick Jagger, mas a parte musical se encontrava nas mãos de Keith, que comandava todo o processo de gravação antes que as bases fossem passadas para Mick Jagger colocar os vocais. Porém, nesse período Keith estava muito próximo de Gram Parsons, que teve fundamental importância no processo de composição de Exile On Main St..

A colaboração de Keith Richards e Gram Parsons gerou as bases do álbum

A influência de Parsons no som dos Rolling Stones pode ser notada nas músicas country que a banda vinha gravando desde o disco Beggars Banquet, de 1968. Gram Parsons era um sujeito adorável, que conquistou facilmente a simpatia de todos, inclusive Mick Jagger. No entanto, sua tempestuosa relação com as drogas lembrava em muito a de Brian Jones e isso se refletia em Keith. Mick passou a se preocupar com a má influência do músico e mandou-o embora após obter o aval de Keith Richards, que não teve coragem de dispensar o amigo. No final das conas, nenhum crédito foi dado a Gram Parsons por suas contribuições no álbum.

Desde o início das gravações, a polícia francesa suspeitava de atividades ilegais na mansão de Keith Richards. Após uma queixa de roubo de instrumentos, a polícia aproveitou para colocar escutas pela casa e homens tirando fotos de todos que entrassem e saíssem do local. Não demorou para Keith descobrir que estava sendo vigiado pela polícia e o guitarrista ordenou que todos permanecessem trancados no estúdio até que o disco fosse finalizado. Toda a equipe passou a morar na residência e pagar aluguel a Keith, que retribuía passando quase oito horas por noite no estúdio para acelerar o processo.

Keith Richards e Anita Pallenberg

Várias outras confusões marcaram as gravações em Nellcôte. Um dia, um dos empregados encontrou Keith Richards e a esposa, Anita Pallenberg, nus e dormindo na cama com o colchão em chamas. Aparentemente, um cigarro de Anita provocou o incêndio. O saxofonista Bobby Keys, com seu temperamento explosivo, também arrumou encrenca nos cassinos de Monte Carlo e se tornou persona-non-grata na região. Quando a filha de Mick Jagger nasceu em Paris, Mick propôs que Keith Richards terminasse as sessões sem ele, para fazerem juntos a mixagem em Los Angeles. Keith não gostou da ideia e a química entre os dois ficou ainda mais abalada.

Mas os problemas ainda não haviam acabado. Um dia a mulher de Keith, Anita, forçou a babá de seu filho a experimentar heroína. A moça contou o ocorrido ao pai, que trabalhava como cozinheiro na mansão. O homem ficou possesso e foi atrás de Keith Richards para tirar satisfação, ao que Keith respondeu mandando-o à merda e demitindo-o. O cozinheiro foi então à polícia, que no dia seguinte iniciou uma investigação contra Keith e apareceu na mansão para realizar um extenso interrogatório. Logo ficou claro que toda a equipe deveria sair dali o mais rápido possível.

Keith Richards ficou apavorado com a possibilidade de ser preso novamente, mas todos estavam proibidos de sair do país até que as investigações fossem concluídas. Após contornarem a situação alegando que Keith continuaria a pagar o aluguel, no final de novembro de 1971 todos fugiram para Los Angeles com vinte canções praticamente prontas, o suficiente para um álbum duplo. Duas semanas depois, a polícia francesa invadiu a mansão para prender Keith Richards, sua família e outros ocupantes da residência por tráfico de drogas. Por sorte, todos já estavam longe dali.

Fonte: A História Impopular dos Rolling Stones (Whiplash!)

De quatro, Maradona!

julho 3, 2010

Calando La Boca

Quando não podemos contar com a Seleção Brasileira para nos trazer alegria na Copa do Mundo, eis que Dieguito Maradona, agora um popstar, cai de quatro e dá aos brasileiros a chance de sorrir novamente e queimar todo o estoque de rojões após o trágico dia da eliminação precoce do time de Dunga.

Depois de classificar a Argentina para a Copa do Mundo com as calças na mão, Maradona decidiu se reinventar para recuperar a autoconfiança de seus gloriosos mullets e dar uma esticada em sua interminável carreira. Como ele sempre foi melhor em chamar atenção do que mostrar futebol com os pés, a estrtégia acabou dando certo e o time dos hermanos chegou na África do Sul com o status de sensação. De repente os argentinos se sentiam os donos do mundo, apesar do sufoco que passaram nas Eliminatórias.

Hoje eles entraram para jogar as quartas-de-final contra a Alemanha querendo revanche pelas derrotas de 1990 e 2006 e tomaram um chocolate gostoso dos meus queridos antepassados. O mais legal é que o povo argentino estava certo de que ganharia a Copa e havia trocentos mil deles na Cidade do Cabo para amargar a desilusão que o povo brasileiro não precisou ter, consciente que estava da opção de Dunga pela negação do talento nacional.

Hoje ninguém mais se lembra de Dunga ou Felipe Melo. O grande popstar sempre foi Maradona. E vê-lo atrair todos os holofotes para si e fazer mais um papelão é diversão de primeiríssimo nível para o povo brasileiro no que ainda resta da Copa da África.

Lolita Pille

julho 1, 2010

Já que a seção de Literatura deste blog anda parecendo mais um obituário, me parece conveniente dedicar algumas palavrinhas a uma das escritoras mais instigantes da atualidade.

Lolita Pille é uma moça que tem um talento especial para as controvérsias. Dona de um charme delicioso, tipicamente francês, possui um semblante doce que contrasta com a acidez de suas palavras. Nascida no subúrbio parisiense, a virginiana de 27 anos vem de família rica e sempre foi mimada com muios luxos. Acostumada a viver entre madames fúteis, patricinhas, granfinos boçais e filhinhos-de-papai, Lolita desenvolveu desde pequena uma personalidade bastante cri-cri. A partir da adolescência, mergulhou na badalada vida noturna de Paris.

Nesse momento de sua vida, a escritora teve a vida típica de uma jovem dondoca porra-louca. Circulando por restaurantes finos, bares de hotéis luxuosos e áreas VIP dos clubes mais bombados de Paris, Lolita Pille absorveu intensamente as mazelas do jet-set francês. Antes dos 18 anos já era alcoólatra e viciada em cocaína, ocupando todo o seu tempo com baladas, chapações, sexo promíscuo e muitas compras para “desestressar”. Logo, essa combinação autodestrutiva proporcionou à moça uma verdadeira visão do inferno em meio a toda aquela pompa. Foi daí que veio a inspiração para o seu primeiro romance, Hell.

O livro conta a história de uma garota podre de rica que, segundo a autora, é inspirada em seu lado mais obscuro. Para chocar os mais pudicos, na contracapa ela já entrega: “Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis; da pior espécie. Meu credo: seja bela e consumista”. Audacioso e direto, o texto despeja críticas à alta classe francesa com a crueza típica de Charles Bukowski aliada ao fluxo narrativo característico de Jack Kerouac. Lançado na França em 2002 e no resto do mundo no ano seguinte, Hell rapidamente virou best-seller, foi traduzido para várias línguas e ganhou versão para o cinema.

No livro, predomina o tom confessional de uma bêbada que vomita verdades comprometedoras sobre todos que a rodeiam. Apesar de esclarecer que se trata de uma ficção, Lolita Pille não evitou citar nomes, lugares e eventos verdadeiros. Obviamente, a publicação despertou a ira de boa parte da elite parisiense e a autora logo se viu banida de todos os lugares que costumava frequentar. No entanto, as consequências dessa atitude ousada não pareceram incomodá-la. Após exibir um retrato nu e cru de sua própria classe, Lolita Pille mandou tudo aquilo às favas e resolveu mudar de ares.

Trocando a mansão em um dos bairros mais sofisticados de Paris por um apartamento na região da cidade habitada por artistas e boêmios, a jovem escritora também substituiu os badalados clubes por pequenos bares. Segundo ela, nas boates só se vê, enquanto nos bares se pode falar e ouvir. Nesse novo contexto Lolita Pille escreveu Bubble Gum (2004), obra que em muitos aspectos superou Hell. Na perspectiva literária, destaca-se o foco narrativo alternado entre dois personagens: ora narrada pelo excêntrico Derek, ora pela neurótica Manon, a história cresce em complexidade conforme se avança na narrativa.

Assim como o livro anterior, Bubble Gum traz uma crítica à juventude rica e perdida. Derek, jovem herdeiro de uma multimilionária corporação da indústria do petróleo, não sabe mais o que fazer com seu dinheiro e decide arruinar a vida de um ser humano qualquer. Manon, bela jovem provinciana, não suporta mais sua vida entediante no interior da França e vai a Paris tentar a sorte como artista de cinema. Quando as histórias se encontram, o leitor passa a ver cada personagem através da perspectiva do outro, em um engenhoso trabalho de composição que faz de Bubble Gum uma obra substancialmente mais rica que Hell.

Publicados no curto intervalo entre os anos de 2002 e 2004, Hell e Bubble Gum mostram uma artista ousada, que não tem medo de falar o que pensa. Enquanto o primeiro revela o talento de Lolita Pille em jogar merda no ventilador e fazer carreira a partir disso, o último apresenta um notório amadurecimento no que diz respeito à técnica literária. Em 2008 a autora lançou seu terceiro livro, Crépuscule Ville, um thriller futurista sobre alienação. Segundo a editora Intrínseca, o livro já foi traduzido para o português e deve ser lançado no Brasil ainda neste ano.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.