olhando pra ela

dezembro 22, 2009

as garotas sempre foram poderosas
com sua essência feminina
que costuma encantar com alguma beleza
e aí fazer o que quer

mas quando eu penso nas gurias
que já me marcaram a vida
nenhuma chega aos pés
da que hoje dorme enquanto eu escrevo

eu olho pra ela
gosto de tentar imaginar seus sonhos
mas gosto mais ainda de saber que estou aqui
agora, olhando pra ela.

Dentre os assuntos que geram entusiasmadas discussões filosóficas há séculos, um dos temas que ainda despertam revolta quando abordados é a manifestação da descrença na existência de Deus, entidade suprema responsável pela criação e regência do universo. Isso se deve à coexistência de opiniões opostas em que, para se demonstrar a força de um posicionamento, faz-se mais necessário refutar o pensamento que a ele se opõe do que construir um argumento convincente que sustente essa posição. No entanto, a discussão acerca da existência ou não de Deus põe em evidência o secular conflito entre ciência e religião, onde a última ainda se fundamenta em conceitos questionáveis no campo da lógica e da razão.

 Os pensadores da Grécia Antiga relutavam em aceitar passivamente as crenças religiosas do próximo, recorrendo à razão e à filosofia para formar uma opinião própria sobre o tema. Com a disseminação do cristianismo, surgiram pensadores com o intuito de provar a existência de um Deus através do uso da razão pura. Trabalhando a favor da Igreja Católica, instituição que se sustentava na representação de uma entidade divina para angariar poder político, pensadores como Santo Agostinho e Tomás de Aquino tornaram, durante muito tempo, a devoção um ato intelectualmente respeitável. De fato, há pelo menos um argumento a favor da existência de Deus que ainda demonstra força entre os filósofos céticos: o da Causa Primordial.

 Este argumento sustenta que, se todo acontecimento tem uma causa, então deve existir uma Causa Primeira a partir da qual tudo se iniciou. Para reforçar esta noção, alguns tratados de Física defendem que quando se traça os processos físicos regressivamente no tempo, demonstra-se que as coisas tiveram um início súbito. Assim, pode-se inferir que isso se deve à criação divina. Mas apesar da consistência deste conceito em particular, grande parte do argumento religioso se baseia no apelo ao coração, em oposição ao intelecto. Quando se analisa o contexto em que foram desenvolvidos os argumentos a favor da Igreja, logo se percebe que a sustentação desses conceitos se deu por sua utilidade na manutenção do poder religioso, e não por sua veracidade.

 Como conseqüência, a censura se tornou a resposta para conter os argumentos contrários ao que impunha a Igreja com seus dogmas. Paralelamente, o desenvolvimento da ciência a partir de Galileu começou a oferecer provas concretas de que grande parte dos argumentos religiosos não passava de falácias. A refutação lógica da noção de uma Terra plana como o centro do universo é um exemplo. A partir de então os conceitos defendidos pelo argumento religioso passaram a perder força e, até hoje, a Igreja Católica se vê obrigada a reavaliar muitos dos posicionamentos que manteve ao longo dos séculos para preservar parte da influência que já obteve. Mas apesar de ter perdido grande parte de seu poder, a visão religiosa ainda predomina amplamente pelo mundo.

Em grande parte, isso se deve ao fato de que a escolha pelo religioso ainda é fortemente influenciada pelo contexto cultural. A maioria das pessoas adota a postura que prevalece em sua própria comunidade, herdando as crenças de seus ascendentes sem buscar um aprofundamento maior sobre o assunto para a formação de opinião. Tendo em vista o medo do desconhecido, a promessa religiosa da vida após a morte ainda é um dos aspectos mais sedutores de sua proposta. Em contrapartida, merecem consideração as palavras do filósofo britânico Bertrand Russell, ao defender que “o cerne da postura científica é a recusa em considerar nossos próprios desejos, gostos e interesses como capazes de fornecer a chave para a compreensão do mundo.”

Quanto à existência ou não de Deus, apesar de ainda não existirem provas concretas que permitam uma conclusão definitiva sobre o assunto, certos detalhes pesam contra o argumento religioso. Um exemplo é o fato de a ciência estar sempre aberta à crítica e à apresentação de evidências que se proponham a prová-la errada, enquanto a religião impõe seus conceitos sustentando-se unicamente na crença através da fé, da fidelidade cega a uma noção ainda incerta, e condena qualquer pessoa que tentar prová-la errada. Shakespeare ilustrou com simplicidade a falibilidade do argumento baseado na fé religiosa ao afirmar que “a verdade nunca perde em ser confirmada.”. Nietzsche também reforçou essa noção ao afirmar que “uma crença forte demonstra apenas a sua força, não a verdade daquilo em que se acredita.”.

(trabalho: construir um texto dissertativo-argumentativo sobre o que der na telha)

não quero esperar e pensar tanto
antes de me mexer
só para tentar garantir
a uma força suprema, correta
e imaginária
que eu estou no pleno controle das minhas virtudes
o modelo de homem centrado
cuja serenidade contagia tudo e todos ao seu redor
a imagem do homem sábio e tranquilo
não poderia estar mais distante da minha realidade
e diferentemente do que se espera
não acho uma boa idéia forjar qualidades
onde não há qualidades
os defeitos existem
para nos dar uma dimensão do que é legal
e o que não é
então
de certa forma
posso me convencer de que os meus defeitos
são uma extensão da minha essência espiritual
e que me desfazer deles
seria como cortar fora uma orelha
ou algo que o valha
e a incapacidade de melhorar se justifica
na suposta sinceridade que eu tenho comigo mesmo
quando acordo na manhã de mais um belo dia feio
e penso se hoje eu vou encontrar a felicidade
para ter que encontrá-la novamente amanhã
aquela coisa abstrata como uma miragem
escondida eternamente no amanhã
que a gente pode sempre ver ali na frente
mas nunca chega perto o bastante para tocar
e lembro que ela está logo ali adormecida
esperando por mim
hoje
enquanto eu espanco o teclado freneticamente
tentando encontrar algum alívio imediato
em vomitar a teoria mal-formulada
de uma prática que acontece quase por instinto
e que por isso mesmo eu deveria parar de pensar em tudo
não me concentrar em nada
e simplesmente deixar a vida se desenrolar
como um tapete vermelho rumo a um precipício
pois é isso que eu acho que a vida é
mas melhor não entrar nesses méritos
não quero ofender
nem mesmo quem merece
pois a felicidade me espera
e eu não quero que ela se canse de me esperar
então
pros quintos dos infernos com toda essa lentidão
vou lavar logo o meu rosto
e dar o fora daqui

além de vênus

novembro 16, 2009

meu olhar perdido no nada
procura os sons que se distanciam
junto com o pensamento
para algum lugar além de vênus
onde ela espera
ansiosa como eu
pelo glorioso instante
em que os olhares se encontram
as peles se tocam
as almas se fundem
e tudo ficam tão
bem

?

outubro 29, 2009

eu nunca pensei que
fosse dizer isto,
mas…

sou um maldito
que facilmente destrói os outros
e sofre mais do que
qualquer um

quando vê que
a dor que se sente
é muito maior do que aquela
da qual se fala

quando pensa
no que acabou de fazer
e logo
no que não gostaria que lhe acontecesse

e sente a dor da ignorância
ao pensar no que faz aos outros
e no que
os outros fazem a ele

e sente muito a dor
até que não sinta nada
nem mesmo aquela
que causou

de repente
de nada adiantou tudo isso
e a única coisa que resta
é um grande ponto de interrogação

alguma força maior
quer me fazer abrir os olhos
me convenço
só para descobrir que
se eu não estragar tudo hoje
alguém o fará por mim
e se ninguém se importar
suficientemente
para interferir na minha rotina
o estrago se fará sozinho
superior às minhas intenções
garantindo a minha culpa
mesmo que os meus erros
eu cometa sem querer

minha arma

outubro 8, 2009

quando me perguntaram
“tudo bem?”
repliquei com um soco na boca
ao mesmo tempo
respondendo à pergunta
e evitando as próximas
foi patético
mas foi poético
me fez pensar em símbolos
no significado das coisas
definitivamente indefinido
como por exemplo
uma cadeira
que deixa de ser um simples assento
quando você adentra o recinto
e eu a quebro na sua cabeça
ou o meu instrumento de trabalho
minha arma
preta com ponta fina
o bastante para furar o seu olho
ou pelo menos dar o recado
de que hoje
não está tudo bem

escrever (ou não escrever)

setembro 30, 2009

eu odeio a palavra melancolia
mas ela simplesmente aparece
escorre pelos meus dedos
aparece numa tela branca
e deixa a sua marca no meu dia
de breves cores

eu penso em falar
algo que me quebra as pernas
coisa difícil de se fazer
e depois percebo que
não adianta criar a coragem para falar
quando não há ninguém ouvindo

então os meus olhos se arregalam
enquanto eu estou jogado num canto
depois de tanto contar a mesma história
para mim mesmo
e pensar “não de novo, por favor”
só o que me resta é tentar escrever

só que
de repente
eu não sei mais
o que diabos
eu penso
que estou fazendo

eu fico meio puto
olho para os lados procurando algo
que faça as vezes do meu coffee break
e é nas minhas costas que eu encontro
uma garrafa verde com cerveja quente
vai ter que servir

aí é que eu percebo
que as cores não estão mais tão breves
eu realmente tinha algo em mente
quando precisei começar a escrever
não faço mais idéia do que seja isso
e não me importo

… 

ela não parecia bem
quando deslizou os dedos sobre o ipod
e botou damien rice
eu logo pensei que ele significa para mim
o que slipknot significa para ela
trilha para quando se quer estourar os miolos

mas quando eu menos esperava
ali estava
eu
em uma canção que lembrava
uma certa banda
em que eu tocava

ela parecia bem
até perceber que eu precisava escrever
em vez de escutar a minha música
que foi ela quem deu
deitou e virou para o canto
não parecia mais bem

então eu penso que
amo demais essa guria
para perder tempo escrevendo
enquanto poderia estar com ela
vivendo e sentindo
aquilo que me faz tão bem

cruz

setembro 28, 2009

a vida é fugaz
e começa bem
doce inocência
roubada de nós
pelas palavras,
pelas vontades
de buscar mais
de ser melhor e de extrapolar todos os limites do corpo e da mente
a obsessão por grandeza aumenta também o vazio a ser preenchido
me pergunto se vale mesmo a pena alcançar o glorioso céu e depois
agüentar a queda e as conseqüências de alimentar ambições demais
e se esquecer
do essencial
daquilo que é
mais humano
sorrir e chorar
sem precisar
de pretexos
para querer
só e somente
a própria paz 
sem se importar
com a dos outros
nunca vale a pena
veja só como acabou
o grandioso pregador
pregado em uma cruz
pagando por pecados
sabe-se lá de quem
sabe-se lá por quê

um idiota letrado

setembro 24, 2009

eu posso ser um idiota
mas um idiota letrado
eu posso escrever

diferentemente
daqueles que só falam
e falam

e não importa o que disserem sobre mim
pois o que eu disser sobre eles
vai ficar.

você se cala
faz aquela cara
de quem não aprova
mas não quer censurar
lança um simples olhar
e o recado tá dado

eu digo que entendo
realmente aprecio a consideração
coisa tão rara
mas não faz diferença
pois a sua hesitação em me julgar
eu também tenho

você não se importa
se eu tenho boas razões
para uma péssima postura
minhas desculpas não bastam
pois nem tudo que faz sentido
está certo

eu reluto em concordar
mas meus olhos não
de repente fica transparente
a minha auto-sabotagem frustrada recorrente
sou capaz de mentir para mim mesmo
mas não para você

você está certa
eu estou errado
mas nem por isso eu desisto
nem por isso eu resisto
à tentação de me acomodar
neste caos interno

eu sei que me precipito
quando perco a noção do perigo
quase sempre me falta coragem
hoje me falta medo
mas não há de ser nada
amanhã é um novo dia

o Berro

setembro 14, 2009

o dia é mais um daqueles monocromáticos
eu desabo na cama 
meus olhos atravessam a janela
rumo a um breve momento
em que uma mancha azul surge no céu cinza
o azul parece querer tomar conta de mim
eu bem que gosto disso
mas num piscar de olhos
o céu está completamente cinza de novo

eu sou um ser humano
que precisa encontrar o silêncio absoluto
sob o pretexto de buscar a Paz
mas na verdade o que eu preciso
é de espaço para soltar o Berro
único e singular
que represente para mim
não somente as minhas maiores angústias
mas toda a dor que há no mundo

uma vez que o Berro ecoa
e eu me liberto desse sofrimento abstrato
a única coisa que parece ter mudado
é que a dor voltou ao nível suportável
um suspiro nasce
e parece morrer antes da hora
os problemas ainda estão lá
e eu não quero nada com eles
mas eles parecem precisar de mim

dia cinza

setembro 4, 2009

ontem foi um dia ensolarado
exageradamente quente
um verdadeiro inferno
tudo parecia estar bem
mas eu não estava

eu sou uma esponja
que absorve muito
da carga negativa que paira no ar
e quando a atmosfera fica limpa
a sujeira está em mim

hoje é um dia cinza
inexplicavelmente lindo
mas não tem nada de paraíso
pois é só quando o mundo está sujo
que eu me sinto limpo

dor

sei que parece bobo, mas acho que eu tenho uma queda pela sensação de desamparo proporcionada por tudo aquilo que dói. os momentos felizes quase me lançam para fora de órbita, de tanto que me fazem esquecer da intolerável realidade deste mundo sujo. diferentemente, momentos de dor me trazem de volta ao chão. eu me queimo, logo, eu grito. talvez seja esta a maior prova de que se está realmente vivo: a capacidade de perceber, reconhecer e reagir à dor.

inferno

eu poderia muito bem perder meu tempo tentando me integrar neste inferno, assim como todos os outros parecem fazer quase que por obrigação, ou talvez estejam apenas sendo carregados por ventos e marés que não são tão fortes quanto eles pensam, nem tão fracos quanto eu penso. na verdade, as coisas exteriores a nós só podem ser medidas quando o parâmetro é a nossa própria postura diante delas. se eu me deparo com algum fato desagradável cuja solução se encontra além do meu alcance, posso tomar a decisão de estacionar na minha própria impotência, ou apenas continuar indiferente e seguir em frente mantendo o foco somente naquilo que está ao meu alcance.

“evolução”

se as pessoas tomassem para si mesmas os conselhos que costumam oferecer aos outros, o ser humano certamente seria um bicho muito mais calado. o mundo seria um lugar mais silencioso. a vida seria mais tranquila. boa parte do stress moderno é resultado de falhas na comunicação entre as pessoas, cada vez mais dinâmica. a cada dia aparecem novas engenhocas que, ao proporcionarem mais e mais facilidades para o cumprimento das tarefas do dia-a-dia, abrem precedentes para o surgimento de novos problemas no cotidiano. quanto mais apetrechos se tem, maior é a chance de algum deles parar de funcionar quando mais se precisa. hoje em dia, ficar sem internet ou telefone celular é motivo para que muita gente entre em desespero, mas há 20 anos esses problemas sequer existiam. o homem do século XXI tende a ser cada vez mais mimado, apoiando-se em tecnologias que eliminam a necessidade de sair de casa e interagir com o mundo. já existe bastante gente por aí vivendo trancada em casa, evitando a fadiga, evitando confronto, evitando a gripe, evitando discórdia. tentando evitar a morte, acabam evitando a vida em si. cada vez mais sozinhas, as pessoas passam a se sustentar nas próprias individualidades. vivem em função das diferenças em vez de buscar uma boa convivência apesar delas. até que, um belo dia, algum rebelde sem (boa) causa decide explodir o mundo, por um ou dois motivos: 1) tem os meios para fazê-lo; 2) não tem mais o que fazer, depois de ser contaminado pela preguiça, pela comodidade, pela intolerância e pelo narcisismo típico do eremita contemporâneo. é bem provável que seja este o destino da nossa festejada “evolução”: isolamento -> atrofiamento -> morte silenciosa. a humanidade se desenvolve e o homem definha. e eu não sei se consigo pensar em um final mais apropriado para todo este “progresso”.

silêncio

agosto 6, 2009

você olha nos meus olhos
e não consegue ver nada
além de morte
a minha
a sua
e a de todos os outros

estou tão gelado
que nem parece real
você abre um sorriso bobo
responde as minhas perguntas com silêncio
cala as minhas angústias com descaso
frieza

e arregala os olhos
quando a minha faca desliza pela sua garganta
de repente tudo parece muito real
sangue quente jorrando
e você sufoca rumo a um silêncio
que finalmente me agrada