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Bill Murray brilha como um cinquentão em crise de meia-idade e Scarlett Johansson, com apenas 18 anos, convence como uma mulher de 25.

Quando lançado em 2003, o segundo filme de Sofia Coppola foi aclamado pela crítica como a salvação de um ano fraco para o cinema. O público também aprovou, e Encontros e Desencontros rendeu 120 milhões de dólares mundo afora. O grande trunfo de Sofia neste filme foi resgatar o talento do cinquentão Bill Murray e apresentar ao mundo o charme de Scarlett Johansson.

Bob Harris (Murray) é um ator decadente em crise de meia-idade que vai a um grande hotel de Tóquio filmar um comercial de whisky. Charlotte (Johansson), recém-formada em Filosofia, está hospedada no mesmo hotel com o marido (Giovanni Ribisi), um fotógrafo de celebridades que só tem olhos para o trabalho. Entre idas e vindas em noites de insônia pelo bar e pela piscina do hotel, Bob e Charlotte se conhecem e passam a compartilhar seus momentos de solidão.

A solidão, inslusive, é o que dá o tom do filme. Os personagens vivem momentos de introspecção, refletindo melancolicamente sobre o ponto de estagnação a que suas vidas chegaram. A barreira da língua acentua significativamente a solidão de ambos, que desenvolvem um sentimento de genuíno prazer por terem encontrado um ao outro no meio daquele caótico vazio.

Acima de tudo, vale destacar a habilidade de Sofia em extrair atuações brilhantes de seus protagonistas. A única dificuldade que a diretora teve com Bill Murray foi encontrá-lo para fazer o convite, o que levou alguns meses. Quanto a Scarlett, Sofia Coppola acertou na mosca ao guiar a atriz, então com 18 anos, no papel de uma mulher de 25. O enfoque na voz rouca de Scarlett foi o artifício perfeito para dar credibilidade à atuação.

O primeiro roteiro orignial de Sofia Coppola, premiado com o Oscar, revela uma identidade cinematográfica bem diferente da do papai Francis. Ele, no entanto, é o maior entusiasta do trabalho da filha e orgulhosamente produz todos os seus filmes. Seja nos personagens, fotografia, figurinos ou na trilha sonora, Sofia Coppola sempre imprime em seus filmes características da sua própria personalidade: tímida, culta, delicada e cool.

Encontros e Desencontros não foge à regra. Assistí-lo é como passar um final de semana chuvoso em casa, confortável, debaixo dos cobertores.

Encontros e Desencontros
(Lost in Translation)
2003
Direção:
Sofia Coppola
Roteiro: Sofia Coppola
Elenco: Scarlett Johansson, Bill Murray, Giovanni Ribisi, Anna Faris.
Avaliação IMDB: 7,9

A química de Jason Schwartzman, Adrien Brody e Owen Wilson: parecem irmãos de verdade

Nitidamente influenciado pela obra de François Truffaut, o norteamericano Wes Anderson tem um jeito peculiar de fazer cinema. Seus filmes apresentam um aspecto autoral inegável, fruto do costume do diretor/roteirista de se envolver em todas as etapas de suas produções. Em outras palavras, é fácil reconhecer o autor pela obra através de marcas registradas presentes em todos os seus filmes.

Em seu quinto filme, Anderson deixou de lado a megalomania cenográfica utilizada no longa anterior (o ótimo A Vida Marinha Com Steve Zissou) para criar um road-movie que se passa, em grande parte, dentro de um trem. Apesar dos percalços de confinar toda a equipe de produção em um espaço tão limitado, o trabalho tem como resultado a fotografia impecável, característica marcante nas obras de Anderson desde Os Excêntricos Tenenbaums.

O filme é precedido por um curta-metragem chamado Hotel Chevalier, que auxilia a compreensão do filme. O curta traz um encontro entre Jack Whitman (Jason Schwartzman) e sua ex-namorada (Natalie Portman) em um hotel em Paris. Os personagens se mostram extremamente desconfiados em diálogos repletos de tensão, mas que chegam a ser cômicos. Em um momento, ela diz que se sentirá péssima se transar com ele. Impassível, ele responde: “Por mim, tudo bem”. E eles transam.

Viagem a Darjeeling narra a jornada de três irmãos que não se falavam há um ano, desde a morte do pai em um acidente de trânsito. Eles partem numa viagem de trem pela Índia numa tentativa de buscar a paz espiritual, reencontrar a mãe (Angelica Houston) e resgatar a unidade familiar perdida. Toda a história se baseia nos conflitos que surgem a partir do relacionamento entre personalidades distintas como as dos três irmãos.

A ideia da viagem parte do mais velho, Francis (Owen Wilson), que sente a falta dos irmãos após sobreviver a uma tentativa de suicídio. Aliás, o ator viveu situação parecida na época das filmagens, o que ajudou a dar credibilidade a uma das melhores atuações de sua carreira. Peter (Adrien Brody), que era o mais apegado ao pai, vive uma crise existencial após descobrir sobre a gravidez de sua mulher. Jack, o caçula, é um jovem escritor em busca de afirmação, que vive às voltas com paixões tão intensas quanto passageiras.

Para o roteiro, o cineasta contou com a inspirada ajuda de Jason Schwartzman e Roman Coppola (filho de Francis, irmão de Sofia). O filme apresenta as mesmas características encontradas em obras anteriores do diretor, como o retrato singelo de relações familiares conturbadas e personagens emocionalmente confusos que se escondem atrás de diálogos evasivos, além de uma indisfarçável preferência pelo rock britânico na escolha das trilhas sonoras.

Em Viagem a Darjeeling, Wes Anderson explora a mesma temática de sempre. Mas o resultado é, definitivamente, seu filme mais belo até o momento.

Viagem a Darjeeling
(The Darjeeling Limited)
2007
Direção:
Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman
Elenco: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Angelica Houston, Bill Murray, Natalie Portman.
Avaliação IMDB: 7,2

Gavin Cavanagh (Rhys Ifans): "A única coisa que faz sentido nesse mundo louco é o rock n' roll"

Os Piratas do Rock é uma daquelas produções britânicas que facilmente agradam o público acostumado com os blockbusters de Hollywood, mas sem perder o charme típico do cinema europeu. Escrito e dirigido por Richard Curtis (conhecido na Inglaterra por roteirizar a série Mr. Bean e uma porção de comédias românticas), o filme é um prato cheio para todo fã de música pop que se preze.

Em 1966 o mundo viu uma efervescência até então inédita na música pop. Foi o ano de lançamentos como Revolver (Beatles), Pet Sounds (Beach Boys) e Face to Face (Kinks), considerados divisores de águas na história do rock. Ainda assim, as rádios oficiais britânicas dedicavam míseros 45 minutos diários de sua programação à música popular. O cenário foi propício para o surgimento de inúmeras rádios-pirata ao redor do Reino Unido, transmitindo as novidades musicais da época a partir de velhos navios pesqueiros que circulavam fora dos limites territoriais britânicos.

O filme gira em torno de uma dessas estações, a fictícia “Radio Rock”. Com a proposta de trazer uma programação de 24 horas diárias com o melhor do rock numa de suas épocas mais produtivas, a rádio rapidamente virou sensação entre o público jovem e despertou a ira das autoridades britânicas, extremamente conservadoras. A estação era formada por um time de DJ’s que aos poucos se tornaram pequenas celebridades do rádio, encabeçados pelo experiente Quentin (Bill Nighy) e por um carismático norteamericano conhecido como “O Conde” (Philip Seymour Hoffman).

Com o retorno do famigerado DJ Gavin Cavanagh (Rhys Ifans) de uma expedição em busca das melhores drogas do mundo, o conteúdo da rádio fica ainda mais subversivo, para desespero do governo. Dentre as práticas rotineiras do grupo destacam-se os jogos recreativos movidos a bebedeiras, a inclusão de palavrões nas transmissões como “mensagens subliminares”, as festas orgásticas com ouvintes cuidadosamente selecionadas e a sabotagem de rádios-pirata concorrentes, quando agiam quase como verdadeiros piratas.

Aliás, esta última parte citada não consta no filme original. Se todas as cenas gravadas tivessem sido incluídas, o filme passaria de três horas de duração. Assim, algumas das cenas mais memoráveis que foram filmadas (segundo o próprio Richard Curtis) ficaram de fora da edição final. Uma delas mostra a viagem de Gavin Cavanagh pelos botecos da América do Sul, quando ele percebe que de nada adianta uma vida repleta de sexo e drogas quando não há o bom e velho rock n’ roll. Portanto, se você viu o filme pela TV, esteja ciente de que perdeu algumas das melhores partes.

A versão do filme em DVD é um dos maiores exemplos de bom uso do espaço de extras no formato. Vale a pena conferir também a trilha sonora, que compila 36 clássicos (uns bem conhecidos, outros mais obscuros) encontrados na programação da rádio. Os Piratas do Rock é uma comédia que vai na contramão de tudo que é explorado atualmente no gênero, para voltar as atenções a uma época em que a música era mais pura, as drogas eram menos letais e a liberdade sexual ainda não se reduzia à mera vulgaridade.

Os Piratas do Rock
(The Boat That Rocked)
2009
Direção:
Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Lucy Fleming, Bill Nighy, Rhys Darby, Nick Frost, Chris O’Dowd, Tom Wisdom, Jack Davenport, Ralph Brown, Rhys Ifans.
Avaliação IMDB: 7,5

Closer – Perto Demais

agosto 24, 2010

A cena de striptease de Natalie Portman é uma das mais marcantes da última década

Mike Nichols não precisava provar nada a ninguém quando decidiu levar aos cinemas a peça de Patrick Marber. Naquele ponto de sua prolífica carreira, o homem já devia ter em sua casa um quarto espaçoso só para abrigar a vasta coleção de troféus dos prêmios Grammy, Tony, Oscar, Emmy, Globo de Ouro e tantos outros que já recebeu desde os anos 60. Em Closer, do alto de seus 74 anos, o diretor criou uma obra de arte contemporânea a partir de temas recorrentes em sua carreira: amor e traição.

O que diferencia Closer de boa parte das produções recentes do gênero é o foco psicológico da narrativa. É impossível saber o que se passa nas mentes dos quatro protagonistas, que formam um intrincado quadrado amoroso sustentado em mentiras. A deslealdade dos personagens se dá, acima de tudo, pelo medo que eles têm de se entregar verdadeiramente ao companheiro. São pessoas que querem desesperadamente acreditar no amor, mas não conseguem chegar perto demais de ninguém pois sabem que eles mesmos não são dignos de confiança.

Dan (Jude Law) e Alice (Natalie Portman) se conhecem por obra do acaso, em uma das cenas de abertura mais belas da última década. A primeira vez que seus olhares se encontram é flagrada em câmera lenta, em uma movimentada avenida de Londres, ao som da latejante “The Blower’s Daughter”, de Damien Rice. Já Anna (Julia Roberts) e Larry (Clive Owen) se conhecem após um mal-entendido, se apaixonam e passam a viver juntos. O foco da narativa é a infelicidade dos dois casais, provocada pela convivência forçada entre pessoas que não se amam porém continuam vivendo juntas, talvez por medo da separação ou pura comodidade.

A infidelidade vira algo corriqueiro em suas vidas, até que Dan e Anna decidem romper com seus parceiros para ficarem juntos. Em uma noite, Larry sai para afogar as mágoas em um bar. Bêbado, ele reconhece Alice trabalhando como stripper e pede uma dança particular. Apesar de Mike Nichols ter excluído as cenas de nudez a pedido de Natalie Portman, a polêmica cena consagrou a atriz como uma das mais respeitadas de sua geração, agora adulta. Não por acaso, o papel lhe rendeu o Globo de Ouro de melhor atriz coadjuvante, além de indicações ao Oscar e ao BAFTA (a equivalente britânica da Academia).

A trilha sonora é um espetáculo à parte. A cena inicial perderia muito de seu encanto sem a melancólica canção de Damien Rice, que ainda contribui com a singela “Cold Water”, ambas de seu elogiado disco de estreia. A banda irlandesa The Devlins criou o clima perfeito para o momento em que Larry encontra Alice na casa de striptease com “World Outside”, uma balada sexy e instigante. Bebel Gilberto, a princesa do MPB para exportação, também aparece com três faixas de seu primeiro disco. E, para refinar a ambientação cult chic, a trilha ainda conta com ecos de Wolfgang Amadeus Mozart.

No decorrer do filme, é fácil alimentar a impressão de que a falta de escrúpulos de Dan e Anna faz deles os vilões da história. Mas é justamente aí que a maestria da direção de Mike Nichols faz toda a diferença: como não se pode realmente penetrar nos pensamentos dos personagens, a única certeza que se tem é que ninguém é santo nessa história. Pode-se supor que Larry e Alice foram vítimas da falsidade de seus parceiros, mas ao mesmo tempo percebe-se que eles eram tão enigmáticos quanto Dan e Anna.

Em suma, a conclusão que se tira após o final de Closer é: nunca é possível saber quais são as verdadeiras intenções das pessoas.

Closer – Perto Demais
(Closer)
2004
Direção:
Mike Nichols
Roteiro: Patrick Marber
Elenco: Jude Law, Natalie Portman, Julia Roberts, Clive Owen.
Avaliação IMDB: 7,4

Como bem defende boa parte dos fãs e especialistas, Exile On Main St. é O grande disco dos Rolling Stones. Gravado na casa de Keith Richards na França e lançado há exatos 38 anos, o álbum abrange todos os estilos explorados dentro do rock n’ roll até então e foi descrito por Frank Zappa como “um grande sopão de rock”, com todos os ingredientes necessários.

Em 17 de maio de 2010 a obra ganhou um relançamento de luxo que conta com o CD remasterizado, DVD, vinil, livreto com fotos inéditas e postcards estilizados, além de um generoso CD bônus com 10 faixas inéditas, todas gravadas nas sessões do final de 1971. O álbum também pode ser encontrado em versão simples ou dupla, com o CD bônus incluso.

A capa e a versão deluxe de Exile On Main St.

Faixas inéditas

Exile On Main St. foi lançado originalmente em vinil duplo, mas hoje se nota que poderia muito bem ter sido um disco triplo. Algumas das faixas novas são clássicos instantâneos e fica difícil entender como pode ter “faltado espaço” para elas. Seja como for, agora não importa mais. Sorte de quem viveu até hoje para ver este tesouro ser desenterrado.

Os primeiros acordes de “Pass the Wine (Sophia Loren)” sugerem uma produção relaxada, típica de uma demo. No entanto, a música ganha pegada e estilo à medida que o arranjo cresce. O refrão é uma ode à tríade sexo, drogas e rock n’ roll: “I’m glad to be alive and kicking / I’m glad to hear my heart’s still ticking / So pass me the wine, baby, and let’s make some love” (“É bom saber que estou vivo e curtindo / É bom saber que meu coração ainda está batendo / Então me passa o vinho, baby, e vamos fazer amor”).

O single "Plundered My Soul" foi lançado em abril de 2010

“Plundered My Soul” não é somente uma boa canção, mas uma pérola pop. Daquelas que te conquistam logo na primeira audição, te fazem cair da cadeira e espernear loucamente pelo fato de eles terem demorado 38 anos para mostrá-la ao público. Gravada em 1971 para entrar em Exile On Main St., não se sabe por que uma música tão cativante ficou fora do álbum. Além do primoroso arranjo das guitarras, destaca-se o impressionante poder vocal de Mick Jagger no seu auge como cantor. A canção ainda foi abrilhantada pelas impecáveis contribuições de Lisa Fisher e Cindy Mizelle, atuais backing vocals dos Stones.

Na sequência, “I’m Not Signifying” é um blues cadenciado e grudento, encrementado com belos solos de guitarra, sax e gaita. “Following The River” é uma  daquelas baladonas em que o piano de Nicky Hopkins faz a cama para a voz de Mick Jagger deitar e rolar. “Dancing In The Light” é construída em cima da marca registrada dos Rolling Stones: a combinação do vocal rasgado de Mick Jagger com os riffs ganchudos de Keith Richards. A primeira metade do CD bônus traz uma sequência arrebatadora de canções, que se destacariam em qualquer álbum da discografia dos Stones.

“So Divine (Alladin Story)” é ao mesmo tempo exótica e chicletuda, talvez tenha sido deixada de lado porque o riff introdutório lembra vagamente o começo de “Paint it, Black”, de 1966. Em seguida aparecem versões alternativas de “Loving Cup” e “Soul Survivor”, esta cantada por Keith Richards. Ambas revelam a influência de Gram Parsons no som da banda, especialmente no jeito de cantar. A sensacional “Good Time Woman” tem um bom motivo para ter sido descartada: é uma clara versão embrionária de “Tumblin’ Dice”. A rápida jam instrumental “Title 5″ fecha o CD bônus em grande estilo, com um rock vigoroso e dançante.

O álbum

Considerado por muitos uma obra-prima, Exile On Main St. é definitivamente o álbum mais representativo da carreira dos Rolling Stones e coroa o auge criativo da banda entre os anos de 1968 e 1974.

No início dos anos 70, Mick Jagger atingiu seu auge como vocalista

“Rocks Off” abre o disco em grande estilo e já mostra que, pelo menos na parte musical, a química da banda nunca esteve tão forte. A canção foi supostamente gravada em apenas dois takes. A seguir vem “Rip This Joint”, um arrasa-quarteirão com vocais que Mick Jagger nunca mais conseguiu repetir. Duas músicas inspiradas nos cassinos de Monte Carlo fecham o Lado A: “Casino Bookie” surgiu de uma jam entre Keith Richards e Bobby Keys, e “Tumblin’ Dice” é o grande sucesso que prenunciou a essência da banda daquele momento em diante: puro rock de arena.
 
O Lado B privilegia a música country, indicando que boa parte dessas canções tiveram o dedo de Gram Parsons. A acústica “Sweet Virginia” tem vocais nitidamente inspirados nos trejeitos do músico norteamericano e traz um belo trabalho de Mick Jagger na gaita. “Torn And Frayed” foi baseada em fragmentos que Keith e Gram estavam compondo juntos.

Abrindo o Lado C, “Happy” é cantada por Keith Richards e foi composta rapidamente na varanda da mansão em Nellcôte quando o guitarrista soube que sua esposa estava grávida novamente. “Ventilator Blues” é um dos raros casos em que Jagger e Richards cederam direitos autorais a outro integrante da banda. A canção de fato nasceu de um riff criado por Mick Taylor e teve a letra inspirada num ventilador que aliviava o calor de uma noite quente. Bobby Keys colaborou com a batida rítmica da música, batendo palmas fora do tempo para que Charlie Watts executasse a os compassos corretamente.

O Lado D encerra o álbum com o rock acelerado de “All Down the Line” e mais uma cover de Robert Johnson (os Stones já haviam gravado “Love in Vain” no disco Let It Bleed). Em seguida inovam mais uma vez com uma típica canção gospel (“Shine a Light), para fechar com a nervosa “Soul Survivor”, de Keith Richards. O guitarrista, figura central durante as gravações do álbum, foi o principal responsável pela riqueza musical na composição e produção de Exile On Main St..

As sessões de gravação de Exile On Main St.

A parceria Jagger/Richards já dava sinais de desgaste em 1971

Apesar de trazer a banda em seu auge criativo, a gravação de Exile On Main St. em 1971 marcou um momento de ruptura entre os integrantes da banda, que naquele momento estava exilada na França para fugir dos abusivos impostos de Sua Majestade.

Mick Jagger estava envolvido com a mulher Bianca e começava a se desentender com Keith Richards, que havia adotado Gram Parsons como parceiro na música e no vício em heroína. Bill Wyman fumava maconha com frequência e se mantinha ocupado com projetos paralelos. Charlie Watts, agora um alcoólatra, tentava se dedicar à família. Já Mick Taylor, abusando do álcool e da cocaína, estava cada vez mais paranóico e desconfiava que sua esposa estaria de caso com Mick Jagger.

Como as gravações estavam acontecendo na mansão de Keith Richards em Nellcôte, na França, houve muito atraso em função das distrações com festas, drogas e inúmeros convidados que movimentavam a rotina na casa, como John Lennon, Eric Clapton, Gram Parsons e William Burroughs. O clima entorpecente do local fazia com que alguns músicos constantemente abandonassem as gravações, enquanto os outros se distraíam com as enormes quantidades de drogas que Keith financiava. Consequentemente, as sessões de gravação nunca contavam com uma banda fixa, e sim com quem estivesse ali na hora.

Mick escrevia e passava a maior parte do tempo acompanhando a mulher, que estava grávida de sete meses. Bill Wyman e Charlie Watts se cansaram do ambiente pesado e improdutivo na casa de Keith e voltaram para suas casas. Assim, a banda que gravou as bases de Exile On Main St. era formada por Keith, Gram Parsons e o roadie Ted Newman Jones III nas guitarras, Mick Taylor no baixo, Bobby Keys no sax, Nicky Hopkins no piano e Jimmy Miller na bateria. Bill Wyman abandonou definitivamente as gravações, iniciando um desentendimento com Keith que se estendeu por mais de dez anos.

As conturbadas gravações de Exile On Main St. comprovaram que o núcelo musical da banda era Keith Richards. Nos anos 60, Mick Jagger e o guitarrista Brian Jones disputavam a liderança da banda e, invariavelmente, o que estivesse mais próximo de Keith detinha o controle. Após a morte de Brian, a liderança era claramente de Mick Jagger, mas a parte musical se encontrava nas mãos de Keith, que comandava todo o processo de gravação antes que as bases fossem passadas para Mick Jagger colocar os vocais. Porém, nesse período Keith estava muito próximo de Gram Parsons, que teve fundamental importância no processo de composição de Exile On Main St..

A colaboração de Keith Richards e Gram Parsons gerou as bases do álbum

A influência de Parsons no som dos Rolling Stones pode ser notada nas músicas country que a banda vinha gravando desde o disco Beggars Banquet, de 1968. Gram Parsons era um sujeito adorável, que conquistou facilmente a simpatia de todos, inclusive Mick Jagger. No entanto, sua tempestuosa relação com as drogas lembrava em muito a de Brian Jones e isso se refletia em Keith. Mick passou a se preocupar com a má influência do músico e mandou-o embora após obter o aval de Keith Richards, que não teve coragem de dispensar o amigo. No final das conas, nenhum crédito foi dado a Gram Parsons por suas contribuições no álbum.

Desde o início das gravações, a polícia francesa suspeitava de atividades ilegais na mansão de Keith Richards. Após uma queixa de roubo de instrumentos, a polícia aproveitou para colocar escutas pela casa e homens tirando fotos de todos que entrassem e saíssem do local. Não demorou para Keith descobrir que estava sendo vigiado pela polícia e o guitarrista ordenou que todos permanecessem trancados no estúdio até que o disco fosse finalizado. Toda a equipe passou a morar na residência e pagar aluguel a Keith, que retribuía passando quase oito horas por noite no estúdio para acelerar o processo.

Keith Richards e Anita Pallenberg

Várias outras confusões marcaram as gravações em Nellcôte. Um dia, um dos empregados encontrou Keith Richards e a esposa, Anita Pallenberg, nus e dormindo na cama com o colchão em chamas. Aparentemente, um cigarro de Anita provocou o incêndio. O saxofonista Bobby Keys, com seu temperamento explosivo, também arrumou encrenca nos cassinos de Monte Carlo e se tornou persona-non-grata na região. Quando a filha de Mick Jagger nasceu em Paris, Mick propôs que Keith Richards terminasse as sessões sem ele, para fazerem juntos a mixagem em Los Angeles. Keith não gostou da ideia e a química entre os dois ficou ainda mais abalada.

Mas os problemas ainda não haviam acabado. Um dia a mulher de Keith, Anita, forçou a babá de seu filho a experimentar heroína. A moça contou o ocorrido ao pai, que trabalhava como cozinheiro na mansão. O homem ficou possesso e foi atrás de Keith Richards para tirar satisfação, ao que Keith respondeu mandando-o à merda e demitindo-o. O cozinheiro foi então à polícia, que no dia seguinte iniciou uma investigação contra Keith e apareceu na mansão para realizar um extenso interrogatório. Logo ficou claro que toda a equipe deveria sair dali o mais rápido possível.

Keith Richards ficou apavorado com a possibilidade de ser preso novamente, mas todos estavam proibidos de sair do país até que as investigações fossem concluídas. Após contornarem a situação alegando que Keith continuaria a pagar o aluguel, no final de novembro de 1971 todos fugiram para Los Angeles com vinte canções praticamente prontas, o suficiente para um álbum duplo. Duas semanas depois, a polícia francesa invadiu a mansão para prender Keith Richards, sua família e outros ocupantes da residência por tráfico de drogas. Por sorte, todos já estavam longe dali.

Fonte: A História Impopular dos Rolling Stones (Whiplash!)

De quatro, Maradona!

julho 3, 2010

Calando La Boca

Quando não podemos contar com a Seleção Brasileira para nos trazer alegria na Copa do Mundo, eis que Dieguito Maradona, agora um popstar, cai de quatro e dá aos brasileiros a chance de sorrir novamente e queimar todo o estoque de rojões após o trágico dia da eliminação precoce do time de Dunga.

Depois de classificar a Argentina para a Copa do Mundo com as calças na mão, Maradona decidiu se reinventar para recuperar a autoconfiança de seus gloriosos mullets e dar uma esticada em sua interminável carreira. Como ele sempre foi melhor em chamar atenção do que mostrar futebol com os pés, a estrtégia acabou dando certo e o time dos hermanos chegou na África do Sul com o status de sensação. De repente os argentinos se sentiam os donos do mundo, apesar do sufoco que passaram nas Eliminatórias.

Hoje eles entraram para jogar as quartas-de-final contra a Alemanha querendo revanche pelas derrotas de 1990 e 2006 e tomaram um chocolate gostoso dos meus queridos antepassados. O mais legal é que o povo argentino estava certo de que ganharia a Copa e havia trocentos mil deles na Cidade do Cabo para amargar a desilusão que o povo brasileiro não precisou ter, consciente que estava da opção de Dunga pela negação do talento nacional.

Hoje ninguém mais se lembra de Dunga ou Felipe Melo. O grande popstar sempre foi Maradona. E vê-lo atrair todos os holofotes para si e fazer mais um papelão é diversão de primeiríssimo nível para o povo brasileiro no que ainda resta da Copa da África.

Lolita Pille

julho 1, 2010

Já que a seção de Literatura deste blog anda parecendo mais um obituário, me parece conveniente dedicar algumas palavrinhas a uma das escritoras mais instigantes da atualidade.

Lolita Pille é uma moça que tem um talento especial para as controvérsias. Dona de um charme delicioso, tipicamente francês, possui um semblante doce que contrasta com a acidez de suas palavras. Nascida no subúrbio parisiense, a virginiana de 27 anos vem de família rica e sempre foi mimada com muios luxos. Acostumada a viver entre madames fúteis, patricinhas, granfinos boçais e filhinhos-de-papai, Lolita desenvolveu desde pequena uma personalidade bastante cri-cri. A partir da adolescência, mergulhou na badalada vida noturna de Paris.

Nesse momento de sua vida, a escritora teve a vida típica de uma jovem dondoca porra-louca. Circulando por restaurantes finos, bares de hotéis luxuosos e áreas VIP dos clubes mais bombados de Paris, Lolita Pille absorveu intensamente as mazelas do jet-set francês. Antes dos 18 anos já era alcoólatra e viciada em cocaína, ocupando todo o seu tempo com baladas, chapações, sexo promíscuo e muitas compras para “desestressar”. Logo, essa combinação autodestrutiva proporcionou à moça uma verdadeira visão do inferno em meio a toda aquela pompa. Foi daí que veio a inspiração para o seu primeiro romance, Hell.

O livro conta a história de uma garota podre de rica que, segundo a autora, é inspirada em seu lado mais obscuro. Para chocar os mais pudicos, na contracapa ela já entrega: “Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis; da pior espécie. Meu credo: seja bela e consumista”. Audacioso e direto, o texto despeja críticas à alta classe francesa com a crueza típica de Charles Bukowski aliada ao fluxo narrativo característico de Jack Kerouac. Lançado na França em 2002 e no resto do mundo no ano seguinte, Hell rapidamente virou best-seller, foi traduzido para várias línguas e ganhou versão para o cinema.

No livro, predomina o tom confessional de uma bêbada que vomita verdades comprometedoras sobre todos que a rodeiam. Apesar de esclarecer que se trata de uma ficção, Lolita Pille não evitou citar nomes, lugares e eventos verdadeiros. Obviamente, a publicação despertou a ira de boa parte da elite parisiense e a autora logo se viu banida de todos os lugares que costumava frequentar. No entanto, as consequências dessa atitude ousada não pareceram incomodá-la. Após exibir um retrato nu e cru de sua própria classe, Lolita Pille mandou tudo aquilo às favas e resolveu mudar de ares.

Trocando a mansão em um dos bairros mais sofisticados de Paris por um apartamento na região da cidade habitada por artistas e boêmios, a jovem escritora também substituiu os badalados clubes por pequenos bares. Segundo ela, nas boates só se vê, enquanto nos bares se pode falar e ouvir. Nesse novo contexto Lolita Pille escreveu Bubble Gum (2004), obra que em muitos aspectos superou Hell. Na perspectiva literária, destaca-se o foco narrativo alternado entre dois personagens: ora narrada pelo excêntrico Derek, ora pela neurótica Manon, a história cresce em complexidade conforme se avança na narrativa.

Assim como o livro anterior, Bubble Gum traz uma crítica à juventude rica e perdida. Derek, jovem herdeiro de uma multimilionária corporação da indústria do petróleo, não sabe mais o que fazer com seu dinheiro e decide arruinar a vida de um ser humano qualquer. Manon, bela jovem provinciana, não suporta mais sua vida entediante no interior da França e vai a Paris tentar a sorte como artista de cinema. Quando as histórias se encontram, o leitor passa a ver cada personagem através da perspectiva do outro, em um engenhoso trabalho de composição que faz de Bubble Gum uma obra substancialmente mais rica que Hell.

Publicados no curto intervalo entre os anos de 2002 e 2004, Hell e Bubble Gum mostram uma artista ousada, que não tem medo de falar o que pensa. Enquanto o primeiro revela o talento de Lolita Pille em jogar merda no ventilador e fazer carreira a partir disso, o último apresenta um notório amadurecimento no que diz respeito à técnica literária. Em 2008 a autora lançou seu terceiro livro, Crépuscule Ville, um thriller futurista sobre alienação. Segundo a editora Intrínseca, o livro já foi traduzido para o português e deve ser lançado no Brasil ainda neste ano.

Waking Life

junho 27, 2010

Julie Delpy e Ethan Hawke: o simpático casal de Antes do Amanhecer reaparece em Waking Life

Waking Life é o mais criativo e inteligente filme em animação já feito. Nele, Richard Linklater mostra por que é considerado um dos maiores cineastas da geração independente dos anos 90 com um brilhante roteiro que explora as infinitas possibilidades de expansão da consciência durante o sono. A ausência dos limites impostos pelo mundo real é realçada por efeitos de animação digital que ilustram o caráter imaginativo do sonhos, algo como se a pop art ganhasse movimento. E tudo isso é embalado pela genial trilha sonora, assinada pela Tosca Tango Orchestra.

Wiley Wiggins (o mesmo moleque cabeludinho de Jovens, Loucos e Rebeldes, obra-prima juvenil de Linklater) interpreta um rapaz que percorre cantos obscuros da própria mente, pulando de sonho em sonho sem conseguir acordar. Em seus devaneios, ele acaba interagindo com as mais diversas representações humanas de um universo que se fragmenta a partir do próprio desenvolvimento. Em cada sonho o protagonista observa ou dialoga com um personagem diferente, explorando questões existenciais que mantêm o espectador intrigado durante todos os 101 minutos de filme.

Nesse caleidoscópio de referências filosóficas e espirituais surgem idéias aparentemente desconexas, mas que se entrelaçam de forma a fazer o espectador refletir e muitas vezes chegar a conclusões perturbadoras. É espantosa a maestria de Linklater em articular temas complexos como o existencialismo de Sartre, o evolucionismo de Darwin e o milenar conflito entre ciência e religião. Mas a principal questão levantada no filme é a estreita relação entre o que é real e o que é fruto da nossa imaginação. A conclusão que se tira é que tudo na vida é meio real, meio imaginário.

O diretor já havia proporcionado a reflexão do espectador com diálogos inteligentes desde Antes do Amanhecer, romance cult de 1995. No final do filme, não se podia afirmar se o casal protagonista acabou ficando junto ou não. Em Waking Life, o cineasta aproveitou para trazer de volta os carismáticos Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy). Aqui eles aparecem deitados na cama, como se tivessem acabado de despertar de uma bela noite de sono, fazendo interessantes observações sobre assuntos como a origem dos instintos humanos e a reencarnação.

Para recriar a natureza disforme dos sonhos, Richard Linklater teve que trabalhar em dobro. Primeiramente, todas as cenas foram filmadas com atores reais. Em seguida, o diretor reuniu uma equipe de 30 animadores para recriar cada cena do filme em computação gráfica, trabalho que levou aproximadamente 25 mil horas para ser finalizado.

Esse trabalhoso processo de pós-produção gerou uma animação psicodélica, onde corpos e objetos não apresentam forma fixa e as cores e texturas parecem dançar conforme a dinâmica do roteiro. O resultado é um filme quase alucinógeno, que reproduz com primor o aspecto visual dos sonhos e remete às visões surreais de Salvador Dali. Como sugere um dos personagens, logo no início do filme: “Não se preocupe em pintar somente entre as linhas. Vá além! Não se limite! Pinte a página inteira!”

Mas o que faz de Waking Life um dos filmes mais fascinantes da última década é o talento de Richard Linklater como diretor/roteirista, aliando discussões filosóficas sobre diversos temas a uma experiência visual sem precedentes na história do cinema. É um daqueles filmes que obrigam o espectador a parar para pensar.

Como no momento em que um sujeito aparece no meio do sonho do jovem para dizer, com calma e lucidez impressionantes: “O maior erro que alguém pode cometer na vida é acreditar que está vivo, quando está apenas dormindo na sala de espera da vida”. Em seguida, uma conclusão mais animadora: “Eles te fazem vender a sua vida por um salário mínimo, mas você tem os seus sonhos de graça”.

Considerando que um segundo sonhando pode equivaler a uma vida inteira acordado, não temos do que reclamar.

Waking Life
(Waking Life)
2001

Direção: Richard Linklater
Roteiro: Richard Linklater
Elenco: Wiley Wiggins, Ethan Hawke, Julie Delpy, Adam Goldberg, Steven Soderbergh, Richard Linklater.
Avaliação IMDB: 7,5

Vicky Cristina Barcelona

junho 20, 2010

Penelope Cruz roubou a cena em Vicky Cristina Barcelona

Em 1977 Woody Allen foi agraciado com três estatuetas na grande festa do Oscar, à qual não compareceu. O filme em questão era Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, comédia romântica que conquistou a crítica com as neuroses de personagens intelectualmente brilhantes, mas emocionalmente burros. O estilo das roupas de Diane Keaton virou tendência no mundo da moda e os diálogos inteligentes de Woody Allen contribuiram para a formação de um novo conceito cinematográfico de comédia, voltado ao aspecto psicológico dos personagens.

Três décadas depois, o cineasta conseguiu realizar seu melhor filme nesses moldes. Vicky Cristina Barcelona foi o quarto projeto “europeu” consecutivo de Woody Allen e é a mais inspirada comédia do diretor desde os anos 70. Rodado em Barcelona, o filme é marcado pelo clima da mais bela cidade espanhola e destoa de toda a extensa filmografia de Allen por mostrar que a temática explorada pelo diretor é, sim, universal. E, neste caso, muito bem representada por Javier Bardem e Penelope Cruz, que encarnaram com perfeição um casal de artistas boêmios da Catalunha.

A história gira em torno de duas jovens americanas, a tímida Vicky (Rebecca Hall) e a descolada Cristina (Scarlett Johansson). As amigas vão passar as férias de verão em Barcelona, onde conhecem o pintor Juan Antonio (Javier Bardem). Sem grandes cerimônias, o artista se apresenta e convida as duas para passar um final de semana regado a vinho e sexo em sua casa de campo na cidade de Oviedo. Vicky, comprometida, rejeita a oferta mas acaba sendo levada, a contragosto, pelo espírito aventureiro de Cristina.

Logo tem início um jogo de insinuações românticas, encontros e desencontros entre Juan Antonio, Vicky e Cristina. Eles passeiam por Oviedo e o artista se mostra um excelente guia turístico, encantando as amigas com o charme da cultura local. Cristina se mostra receptiva às investidas de Juan Antonio enquanto Vicky esnoba o artista e tenta manter contato com seu noivo, um noiva-iorquino certinho e sem graça. O artista insiste em seduzir Cristina e tem início uma série de reviravoltas que tornam impossível ao espectador imaginar o que acontecerá a seguir.

Já se passaram quase cinquenta minutos de filme quando Penelope Cruz finalmente entra em cena e vira o centro de todas as atenções na pele da neurótica Maria Elena, ex-mulher de Juan Antonio, que demonstra não ter superado o fim do casamento. O pintor via em Maria Elena uma artista problemática e genial, cujo temperamento tinha sido determinante para o fim do relacionamento, mas era inegavelmente apaixonado por seu trabalho. Daí em diante, Penelope Cruz incendeia a trama com sua impecável atuação, merecedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Vicky Cristina Barcelona mostra Woody Allen no auge de sua maturidade, coroando o recente período de criatividade iniciado em Match Point com uma comédia sexy e inteligente que traz os mesmos temas de sempre, mais calientes do que nunca (vide o sensacional beijo de língua entre as musas Scarlett Johansson e Penelope Cruz).

Muchas gracias, Woody Allen!

Vicky Cristina Barcelona
(Vicky Cristina Barcelona)
2008

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Penelope Cruz, Patricia Clarkson, Chris Messina.
Avaliação IMDB: 7,4

18/06/2010

junho 19, 2010

saramago morreu e não está nem aí. ele já sabia que seria bem assim, só não sabia o porquê. mas não importava também pois a consciência esteve sempre muito bem. saramago era ateu como eu, que escrevo que ele ainda está por perto. isso poderia soar estranhamente mas não seria novidade para ele, que sentia por ter que deixar de sentir. saramago falava a minha língua, que um dia fora dele, e escrevia corajosamente o que muitos não tinham estômago para ler. por isso sempre estará perto de todos e ninguém jamais chegará perto dele. e isso não faz de saramago um semi-deus, ele já estava de saco cheio de explicar e agora não tem mais motivos para se preocupar. só lhe resta descansar.

 
 
 

A lapdance de Butterfly: clássico instantâneo

Grindhouse foi um lançamento duplo de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez em homenagem aos filmes B dos anos 70. Para reforçar o clima trash retrô, ambos os longas foram rodados em material analógico e recheados com “defeitos especiais”, como cortes de edição propositadamente malfeitos e cagadas ensaiadas de filmagem. Coisas típicas do cinema underground de antigamente, em que os erros acabavam entrando nos filmes simplesmente porque não havia dinheiro para fazer correções.

A sessão dupla dos camaradas mais descolados do cinema norte-americano começa com Planeta Terror, de Robert Rodriguez, um thriller sci-fi sobre humanos que viram zumbis ao terem contato com uma certa substância tóxica. Estrelado por sua namorada Rose McGowan, o filme de Rodriguez é repleto de violência exagerada. Cheira a sangue e pus, mas é bem acabado.

Já o segmento escrito e dirigido por Tarantino é ao mesmo tempo despretensioso e classudo. Conta a história de Stuntman Mike (Kurt Russel), um dublê sociopata que persegue e aterroriza suas vítimas (todas mulheres) a bordo de um carro que, segundo ele, é “à prova de morte”.

A primeira parte do filme se concentra em um grupo de quatro garotas do Texas em um típico dia de bebedeiras e aproximações de rapazes mal-intencionados. É nesse momento que, após encher a cara ao som de clássicos obscuros na jukebox de Tarantino, a sexy Butterfly (Vanessa Ferlito) põe a música “Down in Mexico” da banda The Coasters e oferece uma sensacional lapdance a Stuntman Mike, numa cena já clássica que remete à dança de John Travolta e Uma Thurman em Pulp Fiction.

No entanto, na metade final de À Prova de Morte o caçador vira a caça quando quatro garotas do Tenessee decidem acertar as contas com o vilão. Após serem perseguidas pelo dublê, o grupo encabeçado por Rosario Dawson resolveu dar o troco no troglodita. A segunda parte do filme é centrada na ação e conta com a mais incrível cena de perseguição de carros dos últimos anos, em 18 minutos de tirar o fôlego.

Trazendo os melhores diálogos desde Pulp Fiction, À Prova de Morte é mais um clássico de Tarantino, com todas as características que fizeram do cineasta uma das figuras mais cool do cinema atual: roteiro esperto, direção hipnotizante, trilha sonora impecável e atores certos nos papéis certos. Isso tudo sem contar com o final, surpreendente e espetacular.

Infelizmente, À Prova de Morte ainda não foi lançado nos cinemas nacionais. Primeiro, a Europa Filmes decidiu lançar os filmes de Grindhouse separadamente no Brasil. Após o fracasso comercial de Planeta Terror, a distribuidora adiou ano após ano o lançamento do filme de Tarantino. Recentemente, os direitos de distribuição pela Europa expiraram e a PlayArte já prometeu a estreia para 23 de julho de 2010.

Demorou.

À Prova de Morte
(Grindhouse: Death Proof)
2007

Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino
Elenco: Kurt Russel, Rosario Dawson, Vanessa Ferlito, Jordan Ladd, Rose McGowan, Sydney Poitier, Tracie Thoms, Mary Elizabeth Winstead, Zoë Bell, Eli Roth, Quentin Tarantino.
Avaliação IMDB: 7,2

Quem vive em São José dos Campos conhece bem a situação estranha desta pobre cidade rica: os quase R$ 18 bilhões de PIB, extremamente mal distribuídos entre pouco mais de 600 mil habitantes, ilustram a realidade contrastante de um pólo industrial ainda muito carente de cultura. Mas eis que, numa surpreendente manobra, a organização da Virada Cultural Paulista decide trazer para a cidade a maior diva do rock alternativo mundial.

Foto: Ariel Farinelli

Cat Power, que nasceu Charlyn Marie Marshall há 38 anos na cidade norte-americana de Atlanta, pisou em solo joseense no último domingo (23/05) para fazer o show de encerramento do evento, que cobriu 30 municípios com trocentas mil atrações gratuitas de procedência muitas vezes questionável. Na noite anterior, por exemplo, o sambista carioca Jorge Aragão havia atraído milhares de aborígenes “joselitos” da pior espécie, exaltando a pobreza de espírito que reina soberana aqui em São José.

Mas o domingo amanheceu ensolarado, talvez prenúncio de final feliz para um evento que colocou lado a lado emos e fanfarrões, intelectuais e funkeiros, PM’s e bandidos, toda a família brasileira reunida para o pão-e-circo nosso de nem todo dia. Apesar da presença maciça do povão de sempre e de alguns restos humanos possivelmente oriundos da noite anterior, o clima no Parque da Cidade era suave, de proximidade com a natureza. E Chan Marshall gosta disso, vide seu álbum capim-no-dente, Speaking for Trees.

O fim de tarde estava lindo no parque. O crepúsculo proporcionava um dégradé que levava o céu azul rumo a um pôr-do-sol avermelhado, e o palco estava naturalmente decorado com as silhuetas de longas palmeiras ao seu redor.

Um tiozinho bêbado, sujo e cambaleante avisava que aquele dia era do rock. Policiais traumatizados por Jorge Aragão lançavam olhares ameaçadores para casais de lésbicas, emos uniformizados e vovozinhas curiosas que se acotovelavam na grade em frente ao palco. Uma área VIP separava palco e público, cujas cadeiras de plástico receberam as bundas do governador Alfredo Goldman, do prefeito Eduardo Cury, do deputado Emanuel Fernandes e de seus nobres queridinhos. Meninos e meninas de mãos dadas trocavam selinhos em grande expectativa. De repente todo mundo era fã nº 1 de Cat Power.

Chegada a hora do show, cinco da tarde, ainda havia um bando de roadies e técnicos correndo pelo palco para acertar o som. A produção gringa havia exigido a troca das mesas de som utilizadas no sábado pela equipe de Jorge Aragão. Fazia sentido. Enquanto isso, o público inquieto já lutava com unhas e dentes para garantir um lugarzinho bom para ver o show, tirar fotos e dar tchauzinho para a grande estrela cujo nome poucos saberiam dizer. Pessoas não paravam de chegar de outras cidades para – quem diria! – fazer turismo cultural em São José. Após uma hora de atraso, o show enfim começou.

Foto: Ariel Farinelli

Chan Marshall subiu no palco trajando calça jeans preta, camisão verde-musgo, gravata também preta e os cabelos soltos. Ela mirou o público, sorriu e acenou. Deu um gole numa xícara de chá. Fez suas tradicionais dancinhas de moça tímida enquanto Gregg Foreman tocava no órgão os primeiros acordes de “Don’t Explain”, de Billie Holiday. Quando a musa finalmente começou a cantar, sua voz aveludada inundou o Parque da Cidade como um dilúvio de musicalidade sensível e feminina, deixando milhares de bocas abertas e queixos caídos. Ao final da canção, a declaração de amor: “I love you, Brazil”.

Acompanhada apenas por teclado e guitarra, além de uma eventual bateria, Cat Power desfilou um repertório baseado em seu último álbum de covers, Jukebox. O show foi calcado em interpretações vigorosas de canções clássicas de gente como Janis Joplin (“Woman Left Lonely”), Creedence Clearwater Revival (“Fortunate Son”), Rolling Stones (“Satisfaction”) e Frank Sinatra (“New York”). No meio do show, a sequência “Sea of Love”/”The Greatest”/”Lived in Bars” levou um sem-número de pequenas meninas emo à choradeira elementar de sua espalhafatosa tribo.

O show teve pontos altos com os belos slides de ”Silver Stallion”, com a pulsante nova versão de sua “Metal Heart” e com uma interpretação diferente, nervosa, de “I Don’t Blame You”. Aliás, uma das maiores marcas de Cat Power como artista é a necessidade de nunca cantar a mesma música do mesmo jeito, característica que absorveu de Bob Dylan. Além disso, a cantora se mostra fortemente influenciada pelo vocal cadenciado de seu ídolo, estilo do qual conseguiu se apropriar sem cair na mera imitação.

Ao final do show, Chan Marshall estava tão à vontade que sentou-se à bateria para fazer uma improvisação em cima de “I Wanna Be Your Dog” dos Stooges, com Gregg Foreman na guitarra. O público surtou e invadiu a área VIP, que tinha sido abandonada pelos membros da alta sociedade “joselita” no meio da apresentação. A diva foi então até o fundo do palco e voltou com um buquê de flores que despejou sobre as cabeças de seus fãs mais descontrolados, que saltavam feito pererecas na frente do palco.

A vinda de Cat Power ao Vale do Paraíba despertou diferentes reações do público. Muitos exultaram, mas alguns resmungaram. O fato é que boa parte das pessoas que assistiram ao show não conhecia muito bem a personalidade e o estilo da artista. Aqueles que reclamaram da melancolia das canções provavelmente não ouviram nenhum dos discos em que Chan Marshall aglutinou folk, jazz e blues numa roupagem moderna e original. E o show de Cat Power em São José foi justamente aquilo que os fãs já esperavam: idiossincrático e inesquecível.

Depois de almoçarmos juntos lá pelas cinco e quinze, duas horas e meia após o combinado, marcado por um tipo de convenção social que não tem uma boa explicação, os dois casais ficaram num daqueles silêncios desconfortáveis e eu, na expectativa de ir embora dali o mais rápido possível. Eles nos chamavam para acompanhá-los em uma trepidante noite de putz-putz, uma rave próxima aos escombros de São Luís do Paraitinga.

Segundo eles não havia melhor plano para aquela noite, não havia desculpa, parece que todo mundo estaria lá, e eu pensava “é, todo mundo menos nós aqui”, pois eu sei que a minha guria gosta de sair de vez em quando, meio que pra não morrer sufocada no mesmo ar de sempre, mas ela obviamente tem bom gosto, então cortei o silêncio desconfortável com um definitivo NÃO, tínhamos outros planos que talvez não fossem os melhores planos, eram apenas outros planos para aquela noite.

Eles ficaram com um ar nojentinho de superioridade e perguntaram se poderiam saber quais eram os nossos planos, no que minha guria, cheia de personalidade, disse que apenas ficaríamos em casa escutando música e eles caíram na gargalhada, como se fôssemos incríveis aberrações da natureza, enquanto eu apenas sorri e vibrei com o fato de aquele tipo de convenção social que não tinha boa explicação ter finalmente chegado ao seu fim.

Aproximadamente quarenta e cinco minutos depois, lá estava o outro casal cheio de pó, num beijo babado de bocas amortecidas, fritando ao ao som de algum psy-trance sem-vergonha, enchendo a cara de vodka vagabunda com energético nacional, eles que em breve estariam completamente chapados dando vexame por ele ter atolado sem querer a mão na bunda de outra garota pensando que fosse a dela, vivendo intensamente os melhores planos que poderiam haver para aquela noite.

Nós estávamos enfim a sós, um de frente para o outro, sentados no chão com as pernas cruzadas e o incenso queimando ao fundo de uma luz baixa amarelada, com as orelhas coladas no amplificador de madeira que despejava em nossos ouvidos sgt. pepper’s lonely hearts club band em vinil e produzia, junto com outros agentes catalizadores, um efeito que nos fazia mergulhar um no outro em apenas um olhar, percebendo em poucos segundos o que muita gente não consegue entender numa vida inteira.

Pois eles se obrigam a ter uma dita vida social na Cena, que trata pseudoartistas impostores como ídolos, doutrinada no consumo de psy-trance, pó, bunda e vodka barata e concede aos outros a oportunidade de extravazar o vazio de suas pobres almas enquanto nós, herdeiros da cultura do ócio que tem suas raízes na antiga Grécia, tempo e lugar em que precisava-se matar leões gigantes no braço para ser considerado um verdadeiro ídolo, nós estamos cagando para os outros.

medo do escuro

março 19, 2010

em uma bela noite
ele acordou com um barulho
um ronco que soava
próximo ao seu rosto
do lado direito de onde ele dormia.

era um ronco grave
pesado
gutural
alto o suficiente
para lhe arrancar do sono com um susto.

ele abriu os olhos
esperando que o ruído
se esvaísse com seus sonhos
mas ele apenas
pareceu ficar mais alto.

a incompreensão levou-o a crer
que estava acompanhado por alguém
que poderia estar em qualquer lugar
menos ali
naquele quarto vazio.

resistiu incrédulo por alguns minutos
antes de se encher daquilo
levantar num pulo
acender a luz
e dar de cara com nada.

o barulho se fora
mas continuava assustando
sentia vultos sussurrando em seus ouvidos
voltou a ter medo do escuro
não conseguia mais dormir

só porque acreditou
que aquilo ali
estava fora do seu alcance
quando na verdade
era o contrário.

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